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13 de outubro de 2017

CONTO: Terra Iluminada (A Explosão da Supernova).


explosão de supernova, histórias sobre explosões de supernovas

Olá, pessoal, mais um continho para vocês! Trago-lhes o conto Terra Iluminada, que compõe, juntamente com outros quinze, o livro Quilômetro Cinza e Outros Contos de Cabeça. Os contos foram publicados na Amazon. Você pode comprar o eBook ($9,99), clicando AQUI.
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Terra Iluminada

(A explosão da Supernova)


Trinta e cinco mil vezes maior do que o Sol, uma estrela de nêutrons, ao sobreviver a fusão de dois gigantescos buracos negros, depois de um longo tempo se expandindo e engolfando dezenas de outras estrelas, colapsou e explodiu. Sua explosão gerou uma Supernova, um cataclismo luminoso cujo poder condenaria tudo à destruição em seu caminho.

Em uma constelação relativamente próxima dos domínios da Terra, no centro da Via Láctea, a explosão se dera em uma zona hostil da galáxia, rodeada por forças cósmicas devastadoras, embora nada que se comparasse a destruição gerada pela Supernova. E foi engolfando tudo, e destruindo tudo que encontrou. Em dois dias, chegaria à Terra.

Antes da explosão, enquanto se expandia, quem olhasse da Terra para o céu negro, veria que a estrela de nêutrons não passava de um pontinho pulsante no meio de inúmeros outros, no entanto, conforme o pontinho passou a se destacar das demais estrelas, chegou a ser quase cem vezes maior e mais brilhante, e chamou a atenção dos astrônomos e cientistas. Governos ao redor do mundo organizaram às pressas seminários, debates e discussões a fim de que se revelasse o mistério do pontinho pulsante que não parava de aumentar, até que se deu a explosão, surpreendendo a todos, e uma circunferência luminosa apareceu no céu. - “Testemunhamos o nascimento de uma Supernova muito próxima da Terra.” - chegaram a conclusão acertadamente. Com a conclusão, também foi dada a sentença. - “É o nosso fim, o fim da Terra, o Juízo Final. Vamos todos morrer.”

Ninguém queria acreditar em tal catástrofe. A negação foi generalizada. - “Mentirosos! Sensacionalistas!” - a humanidade reagiu. Governos decretaram estados de exceção, punindo quem promovesse ou incitasse a desordem pública. Quem se somasse ao alerta dos astrônomos, seria condenado sumariamente à morte e executado na mesma hora, e em países pouco menos alarmados os condenados seriam jogados na prisão, o que também passava longe de ser bom. Porém, a negação não passou de um dia, de exatas vinte e quatro horas desde a explosão. A circunferência luminosa crescera de repente e logo tomou o céu, deixando-o luminescente, mais claro do que a nuvem mais branca que já existiu. Já não se podia esconder dos povos o que estava por vir.

Passado a negação, uma Ordem Global foi imediatamente imposta dividindo a humanidade em duas classes: a dos importantes, a dos considerados os bons e que, portanto, seriam os merecidos de serem salvos e a dos miseráveis, aqueles que sequer teriam a chance de se salvarem; esse segundo grupo, a maioria. Teorias e explicações salvacionistas tomaram conta do mundo.

Era assim porque devia ser e pronto! Os presidentes, monarcas, intelectuais e magnatas foram levados para abrigos antinucleares, imaginando estarem a salvos. Perceberiam que ninguém estava. Horas antes do Fim, as geleiras dos polos derreteram em minutos, submergindo ilhas e litorais.

O cataclismo luminoso avançava ferozmente enquanto isso, engolfando toda Via Láctea. O Fim chegou então nos domínios do Sol e, em pouco menos de um minuto, tudo foi destruído. No momento que engolfou a Terra, pai, mãe e dois filhos de uma família norte-americana estavam em volta de uma mesa como se jantassem normalmente. Um grupo de mendigos de uma rua de São Paulo teve uma morte não menos poética: ao relento e iluminados. As tribos indígenas da Amazônia se irmanaram no exato instante do extermínio. Na Rússia, um jovem soldado escolheu morrer abraçado com sua bela esposa, uma famosa bailarina de uma companhia não menos reconhecida. Ambos liam Guerra e Paz, de Tolstói. Exércitos de homens e mulheres de boa vontade foram extintos assim como suas honras. Os mais ferozes dos animais, as florestas, as montanhas, os micróbios, as cobras peçonhentas e vales inteiros: tudo foi pulverizado pela Luz. As águas dos oceanos, dos rios, dos lagos e dos aquíferos no seio da Terra evaporaram na décima parte de uma fração de segundo. Os órfãos do mundo morreram perdoando-lhes as mães por tê-los abandonados. As mães do mundo fazendo carinho em seus filhos, os pais as acompanhando. A própria crença em Deus parou de existir. O Papa Francisco III encontrou seu fim na Capela Sistina, orando em uma improvisada Última Santíssima Missa na companhia de fiéis. Celebridades, criminosos, hippies, crianças, idosos, heróis, vagabundos e africanos, todos pulverizados pela radiação gama.

No que cumpriu sua sina com a Terra, a Destruição seguiu por mais sete galáxias, alimentando-se de mais estrelas, quando só parou de engolfar o que encontrou ao ser parado por mistérios ainda maiores, por forças cósmicas impossíveis de serem sequer imaginadas.

Novos planetas e sóis surgiram quase que imediatamente depois.

FIM

22 de setembro de 2017

Parte 2 de 2: Isaurinha e Seu Fernando.


amor na terceira idade, pureza na terceira idade

Aí está a segunda parte de "Isaurinha e Seu Fernando", que compõe, juntamente com outros quinze, o livro Quilômetro Cinza e Outros Contos de Cabeça! Os contos foram publicados na Amazon. Você pode comprar o eBook ($4,50), clicando AQUI, ou o livro impresso (USD15,50), que você compra acessando AQUI. 
Espero que gostem do desfecho! 

Isaurinha e Seu Fernando



Tratavam-na como um animal de estimação. Nos primeiros dois dias, Seu Fernando arrumou um vaso de flores vazio para que Isaurinha forrasse o fundo com algumas folhas e gravetos, fazendo o vaso de casa para a aranha. Zelosa, colocou até mesmo uma tampinha que enchia de água, caso a mesma sentisse sede, e insetos, caso tivesse fome e preguiça de caçá-los.

Isaurinha a mimava. Conforme os dias passaram, as horas transcorreram, a aranha revelou-se então única no que foi se desenvolvendo e crescendo muito acima do imaginável. Já não vivia mais no vaso, circulava por todos os cômodos do sobrado. A criatura, para a graça de todos que a viam fazendo companhia ao casal, ganhara o tamanho de um cachorro da altura dos joelhos de Isaurinha. Isaurinha batizara a mutante com o nome Vitória. Achava propício esse nome.

“Quer dar uma voltinha pelo bairro, Vitória?”

“Não deve ser isso, minha vida. Não. Não. Já sei o que é! Vitória está com fome. Vou lá fora caçar mais insetos e já volto.” - Seu Fernando voltava sempre com um pote cheio de mariposas e borboletas que capturava ora na praça, ora em uma mata próxima do sobrado.

Assim era a rotina da aranha: depois de alimentada, levavam-na para passear e a apresentavam com todo orgulho para os amigos, vizinhos e desconhecidos que não se mostravam menos carinhosos ao vê-la.

“Chama-se Vitória.” - diziam, o casal. - “Ela é muito querida. Cresceu tanto pelo amor.”

Foi então que certo dia, quando a vida corria normalmente, a rotina fluindo, o céu ficou coberto da cor cinza e uma chuva forte lavou a cidade durante aquela tarde, a noite e boa parte do dia que se seguiu. Não havia ninguém que não tivesse a vida sido afetada pelo temporal ou que não conhecesse alguma pessoa prejudicada. Assim que a chuva começou, um cão rotweiler que fugia do aguaceiro se abrigou na varanda do sobrado e pôs-se a latir com medo dos sucessivos trovões, como que implorando por abrigo. Isaurinha e Seu Fernando, ao ouvir os latidos, solidários, abriram a porta rapidamente para que ele entrasse e se abrigasse da chuva. Adotaram o cão rotweiler.

Seu Fernando o batizou com o nome Gilbert.

Gilbert e a aranha Vitória se tornaram tão amigos e leais um para com o outro que não se desgrudaram um segundo desde então.

Mais um sábado, Isaurinha e Seu Fernando arrumavam as últimas bonecas dentro de duas malas para vendê-las na feirinha de artesanato da praça.

“Gilbert e Vitória, vocês querem ir com a gente?” - Seu Fernando perguntou aos dois que já os esperavam, ansiosos, na porta do sobrado.

“Claro que querem, papai.” - Isaurinha respondeu por eles. Brincou. - “A gente quer muito, não é mesmo crianças?”

Não queriam deixá-los em casa, desprotegidos e sem companhia.

Gilbert e Vitória foram juntos com o casal. Logo que chegaram na praça, enquanto Isaurinha e Seu Fernando ajeitavam as bonecas de porcelana que venderiam, o cão e a aranha mutante se juntaram aos pés de uma árvore, quietinhos para que assim não distraíssem os clientes ou atrapalhassem as vendas. E por mais que a lógica dissesse o contrário, não atrapalharam as vendas. Gilbert e Vitória funcionaram como atrativos para que a meninada se aproximasse e se interessasse ainda mais pelas bonecas.

Venderam mais do que na semana anterior. Tão prontamente a meninada se aproximava, Isaurinha era carinhosa com todas e também com aquelas que já se apresentavam dizendo só estarem admirando as bonecas. Seria assim na semana que se seguiu, e na seguinte, com Gilbert e Vitória aos pés da árvore, enquanto vendiam todas as bonecas que haviam levado à feira.

Em uma dessas vezes que atenderam a meninada, uma em especial, de vestido azul, se aproximou então da bondosa Isaurinha e do generoso Seu Fernando.

“A senhora se lembra de mim?” - perguntou.

Isaurinha, mesmo com uma ligeira suspeita de conhecê-la, não se lembrou.

A menina respondeu a própria pergunta:

“A senhora me deu uma boneca de presente quando eu estava junto com o meu vovô. Se lembra de mim agora?”

“Sim, agora me lembro. Mas onde está o seu vovô? Está sozinha?”

“Meu vovô morreu, mas não estou sozinha porque ganhei uma mamãe.”

Seu Fernando, no que a ouviu dizer que ganhara uma mãe, comemorou:

“Que bom saber disso!”

“Sim, ganhei uma mamãe de coração. É assim que eu chamo ela. E ela também é muito rica.” - disse, a menina de vestido azul.

A menina, de forma resumida, contou o que se sucedeu em sua vida nos últimos dois meses. Disse que seu avô havia morrido e que fora levada a um orfanato, onde, poucos dias depois, conseguiu ser adotada.

“Eu quero dar um presente para a senhora.” - ofereceu uma bonequinha de ouro cravejada de diamantes e outras pedras preciosas. - “Por favor, diz que aceita!”

“É muito valiosa, eu não posso aceitar.” - Isaurinha recusou.

“Insisto que aceite.” - emendou, a menina. - “A senhora foi muito boa comigo. Foi mamãe quem sugeriu que eu lhe desse esse presente. A senhora merece e precisa dele.”

Assim sendo, ao lado de Seu Fernando, Isaurinha aceitou o presente. A menina sabia que a joia era uma inequívoca ajuda financeira ao casal. Ao deixar a praça, despediu-se ainda de Vitória e do cão rotweiler Gilbert. Ambos a observavam com ternura.

Todos os personagens, às suas estranhezas, guardavam preciosas semelhanças e, por isso mesmo, eram especialmente singulares.

FIM

20 de setembro de 2017

Parte 1 de 2: Isaurinha e Seu Fernando.

casal de velhinhos namorando

Pessoal, a primeira parte de "Isaurinha e Seu Fernando" para vocês! O conto compõe, juntamente com outros quinze, o livro Quilômetro Cinza e Outros Contos de Cabeça. Eles foram publicados na Amazon. Você pode comprar o eBook ($4,50), clicando AQUI, ou o livro impresso (USD15,50), que você compra acessando AQUI.  
Aproveitem!

Isaurinha e Seu Fernando



Certa de que Seu Fernando levantaria faminto, Isaurinha já havia se levantado para ferver o café. E assou bolo de milho, pão salgado e fez uma jarra de suco espremendo doze laranjas que pediu para Seu Fernando comprar pessoalmente no dia anterior, no mercadinho do bairro. Igual o amor que expressavam um pelo outro não se via nada parecido.

Após tomarem o café, Isaurinha e Seu Fernando teriam um dia cheio. Aposentados, ainda davam duro trabalhando dentro e fora de casa. Isaurinha, para complementar a renda, minuciosa com as mãos, fazia bonecas de porcelana, que, com a ajuda do esposo, vendia aos finais de semana em uma feirinha de artesanato. E enquanto as fazia, Seu Fernando cuidava dos serviços da casa: varria o chão, lavava e passava a roupa, montava o umbigo no fogão para cozer o almoço e a janta, recolhia o lixo da cozinha e dos dois banheiros do sobrado, e ainda, como se lhe sobrasse o tempo de uma vida inteira, roçava a grama do jardim uma vez por semana. Reunia disposição para todas essas tarefas porque não queria cansar Isaurinha.

Era um casamento de décadas, daqueles amores que só cresciam.

Sábado. Isaurinha e Seu Fernando vendiam as bonecas na feirinha de artesanato instalada em uma praça. Grupos de meninas se reuniram em frente a barraca tão encantadas com a mercadoria que sequer piscavam ou fechavam a boca. Puxavam as saias de suas mães, as calças jeans de seus pais que haviam acabado de sair do trabalho e pediam para que eles as comprassem não apenas uma mas todas que apontavam com seus dedinhos miúdos. E quando finalmente compravam explodiam de alegria.

“Você quer uma dessas bonequinhas, minha filha?”

“Sim, papai.”

“Ótimo então! Qual você quer? Pode escolher.”

“Quero todas, papai.”

Mesmo sob reclamação, um dos pais não comprou todas que a filha quis, mas comprou logo as cinco mais trabalhadas que Isaurinha havia atravessado a sexta-feira fazendo com enorme dedicação. Além das que vendeu, o casal levara outras quarenta e cinco de diversos preços. Seu Fernando não era menos carinhoso nos momentos da venda. Atendia os clientes com dedicação e entregava as bonecas como se fossem filhas, filhas que nunca tiveram, e ainda pedia à meninada que cuidassem delas de forma igual.

“Aqui está a sua filhinha.” - dizia. - “Cuide dela com muito amor!”

Certa vez, permaneceram na feirinha até o meio da tarde, quando já havia passado um pouco o horário do almoço. Antes que recolhessem as bonecas dentro de uma mala para retornarem para casa, Isaurinha se deparou com uma menina mal vestida, acompanhada por um senhor que aparentava ser seu avô, olhando-as hipnotizadamente. Então, perguntou se ela havia gostado de alguma delas, se as achava bonitas.

“Sim. Sim. Elas são muito charmosinhas.” - respondeu, a menina mal vestida.

Cheia de compaixão, Isaurinha a presenteou com uma das bonecas. Primeiro, disse à menina que apontasse a que mais achara bonita, porém, ao ver sua vergonha em escolher uma, não hesitou e ofereceu-lhe a mais graciosa, que era também a mais cara das que haviam sobrado das vendas.

“Promete que vai cuidar dessa charmosinha com muito amor e carinho, minha querida?”

“Sim. Sim.”

O senhor que acompanhava a menina, enormemente agradecido pela bondade de Isaurinha se ajoelhou diante do casal e começou a chorar.

“Por quê está chorando, meu bom amigo?” - Seu Fernando perguntou.

“Por que vocês foram muito bondosos. Eu e minha neta não estamos acostumados a ter um tratamento assim.”

“Não estão?” - Seu Fernando o encarou com otimismo. - “Se acostumem então porquê os bons, mesmo em tempos sombrios, foram e sempre serão a maioria.”

Assim sendo, o senhor agradeceu ao casal e foi embora de mãos dadas com a menina mal vestida, que, feliz, abraçava calorosamente a boneca que havia ganhado.

No que se prepararam para deixar a feira então, Isaurinha avistou uma pequenina aranha armadeira sobre as pétalas amarelas de uma delicada flor. Recolheu a aranha dentro da cabeça de uma das bonecas que havia se desprendido do corpo.

“Podemos cuidar dela, querido?”

“Claro, minha vida, como quiser.”

FIM

18 de setembro de 2017

Salvando o Coelho (CONTO).

coelhos brancos namorando

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Salvando o Coelho


Mas, afinal, por que é que os dois paraquedistas soltaram o coelho de um avião para depois irem atrás dele? Se perguntasse o que ele os fizeram, a resposta é rigorosamente nada, o que só aumenta a estupidez da coisa. Era um jogo, um desafio irresponsável cujo vencedor seria aquele que salvasse o coelho.

Um dia antes, Cláudio convidou Celso para o desafio. Celso mostrou certo receio em relação ao plano horas antes do embarque. Temeu que, por algum motivo suficientemente plausível para qualquer um com o mínimo de discernimento, não conseguissem salvar o coelho.

“Mas se a gente não conseguir pegá-lo?”

“Por que a gente não conseguiria alcançá-lo? É um coelho que não pesa quase nada. Vai ser como pegar um ursinho de pelúcia no ar. Deixa de ser frouxo!” - Cláudio insistiu. - “Qual é, companheiro? Não acha que ele vai sair voando para longe da gente quando for solto do avião, acha?” - instigou o amigo.

“Não sei, não.”

“Sabe sim.”

Cláudio não precisou insistir muito para que Celso concordasse. “Pensando bem, você tem razão. Vai ser divertido até.” - aceitou.

Sobrevoaram uma fazenda de café, sugestão do piloto no momento que foi convidado pelos dois colegas a participar do desafio.

“É só por precaução.” - argumentou, receoso de serem flagrados.

O coelho pertencia a filha única de Celso, Maria Isabel. No que Celso saiu de casa para ir ao hangar se encontrar com Cláudio e com o piloto, duas horas antes do que geralmente saía de casa para o trabalho, entrou no quarto da filha sem fazer barulho e apanhou o coelho que dormia na cama, levando-o consigo. Começou a ficar preocupado de que não pudessem alcançar o coelho pela primeira e última vez, quando já sobrevoavam o cafezal e já era tarde para desistir. Assim fizeram: soltaram o coelho e foram atrás para resgatá-lo. Um minuto depois, Celso abriu o paraquedas enquanto que o coelho já não se contorcia mais, desesperado com o que lhe acontecia. A três mil pés de altura, Cláudio, como uma flecha que perfura o ar, conseguiu finalmente alcançá-lo e abriu o paraquedas.

Cláudio aterrizou momentos depois, seguido por um Celso eufórico com o feito.

“Foi mais emocionante do que esperávamos!” - Celso se aproximou. E perguntou. - “Quando vamos fazer o resgate de novo?”

Cláudio respondeu com um semblante de espanto visível no rosto:

“Não vai haver outro salto.” - mostrou-lhe o coelho imóvel em suas mãos.

“Mas como é que ele morreu?”

“Deve ter morrido de medo.”

“Medo?”

“De infarto.”

Celso pensou em Mabel no mesmo instante.

“Não é possível; deixe eu vê-lo!” - viu que o coelho não tinha sinais vitais, que ele havia realmente morrido.

“Que vai fazer?” - Cláudio perguntou.

Sentindo-se culpado pelo que havia acontecido, Celso fez um ensurdecedor silêncio antes de responder:

“Minha filha não precisa saber o que fizemos.” - apressou-se em explicar. - “Vou levá-lo para casa agora mesmo e, quando ela acordar e me disser que seu coelho está morto, eu a confortarei dizendo que compro outro igual. Nunca vai descobrir que fomos nós.”

Cláudio não viu defeito no plano do amigo. Olhou-o nos olhos firmemente, com a segurança de quem concorda.

O dia ameaçava amanhecer. Celso deixou o cafezal então e se apressou em voltar para casa, levando o coelho morto consigo. Ao chegar em casa, ainda com a vestimenta de paraquedista que usara para saltar, certificou-se de que a esposa ainda não havia acordado e entrou no quarto da filha para colocar o coelho morto dentro da sua casinha. No instante seguinte de tê-lo colocado, a pequena Mabel surpreendeu o pai, flagrando-o dentro do quarto.

“Deu ração para o Peludinho?” - perguntou.

Celso olhou para a filha, nervoso. Não conseguiu responder nada.

“É cedo ainda. Peludinho não está com fome.” - Mabel não esperou resposta e se sentou na lateral da cama. - “Ele deve estar dormindo.” - disse.

Logo depois, para o pânico de Celso, Mabel se levantou e caminhou até a casinha do coelho para vê-lo de perto.

“Viu? Ele está dormindo mesmo.” - disse ao pai.

Mabel voltou a dormir enquanto que Celso foi para o banheiro trocar de roupa. Pôs a roupa de paraquedista para lavar e, sem fazer barulho, entrou no quarto onde a esposa dormia pesadamente.

“Vou preparar uma caneca de leite morno. Você quer?” - sentou-se na cama, acordando a esposa.

“Não, meu amor, obrigada.” - a esposa agradeceu. - “Mabel ainda está dormindo?” - quis saber.

“Sim, não se preocupe.”

Celso foi para a cozinha tomar o leite morno e se acalmar um pouco. Ainda estava muito nervoso, extremamente preocupado com a reação da filha quando descobrisse que o coelho que ganhara de presente de aniversário restava morto. Enquanto esteve na cozinha, ficou o tempo todo ensaiando uma forma de reagir à sua tristeza, até que, meia hora depois, Mabel apareceu com o coelho deitado nos braços.

“Que aconteceu, meu docinho?” - Celso colocou a caneca sobre o balcão e se preparou para confortar a filha.

“Nada, pai.” - Mabel respondeu. Acarinhava o coelho com o amor de sempre. - “Peludinho está dormindo.” - a menina disse baixinho para o pai ao ver que ele olhava fixamente para o seu colo.

“Não pode ser verdade.” - Celso soltou um riso inconformado.

Se aproximou da filha e, mesmo com alguma resistência por parte dela, pôs a mão sobre o coelho. Percebeu que ele, de fato, dormia e que, vez ou outra, até mexia as orelhonas brancas.

A menina, sem entender o que o pai queria dizer, indagou-o:

“Que é que não pode ser verdade?”

“Nada, docinho.”

E Celso foi correndo para o quarto se confessar com a esposa. Tudo aquilo não fazia sentido algum. Mabel seguiu-o. Ele adentrou o quarto e se aproximou da cama. A esposa dormia pesadamente, um dos braços estendido em direção ao chão.

“Meu bem, acorde!” - gritou.

Nada pôde ser feito.

“Cristeia!”

Deu-se por conta ali mesmo que uma coisa terrível havia se passado no quarto enquanto estivera na cozinha: a morte fulminante da esposa e do feto que ele só foi tomar conhecimento que ela carregava no ventre ao ser informado após a necrópsia.

“Volta para mim, meu amor! Não me deixa!” - implorou.

Abraçado com o corpo da esposa deitado na cama, Mabel e o coelho se aproximaram da lateral da cama.

“Que aconteceu com a mamãe?” - a filha perguntou.

“Mamãe está dormindo, docinho.” - respondeu.

“Que horas ela acorda?”

“Não, docinho, você não entendeu. Mamãe não vai acordar.”

“Por que, papai?”

“Porque Deus quis assim. Porque Ele quis.”

Dias depois, coisas tão ou mais piores continuaram acontecendo, definitivas ou não, provocadas ou não, mas nada com o coelho ou com a pequena Mabel. Cláudio e o piloto morreram em um desastre aéreo, uma praga abateu-se sobre o cafezal, que não deu mais nenhum pé saudável de café, e Celso ficou cego do nada.

“Deus não gosta da gente, papai?”

“Boa noite, docinho.”


FIM


15 de setembro de 2017

De Uma Breve Vida Breve em Edvard Hespanhol (PARTE FINAL).

galpão velho em preto e branco

Amigos, hoje trago para vocês a quarta e última parte do conto em questão! Os contos foram publicados na Amazon. Você pode comprar o eBook ($4,50), clicando AQUI, ou o livro impresso (USD15,50), que você compra acessando AQUI. 
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De Uma Breve Vida Breve em Edvard Hespanhol


Chegara o momento esperado. Nos locomovemos do galpão abandonado até o palácio em um comboio de vinte carros, trinta motos e cinco caminhões, comboio que apelidamos de “Caravana de Assalto”. Quanta ingenuidade! A resposta do governo seria ainda mais furiosa. Antes disso porém, ainda no galpão, o meu celular tocou. Era mamãe, emocionada, que foi logo adiantando que tinha uma maravilhosa notícia para me dar. Com a voz trêmula, disse que estava grávida de papai. Ouvindo-a sem saber o que dizer, perguntei se a criança era menino ou menina e mamãe respondeu que ainda era cedo para que pudesse saber o sexo, que só tinha pouco mais de dois meses que estava grávida. Sem demora, Rafaelo veio até onde eu estava e sinalizou que partiríamos para o palácio.


“Parabéns, mãe. Te amo.” - prometi que teria muito orgulho de mim quando voltássemos a nos ver.


“Nós também te amamos, Edvard.” - mamãe respondeu.


Desliguei o celular.


Era vinte de abril. Havendo completado quase uma semana que estava desparecido e mesmo apreensiva com uma desordem política desencadeada pela nossa tentativa frustrada de derrubar o regime de Jupecê, considerou até então meu desaparecimento estranho, mas normal, nada que merecesse enorme preocupação. Pela manhã, mamãe fora consultar-se com seu obstetra que a examinou, garantindo que tudo corria bem com a saúde do bebê.


“É um menino, doutor?”


“A senhora quer ter um menino?”


“Áries ficaria muito feliz se fosse.”


“Ótimo, é um menino!” - o obstetra confirmou.


Ao voltar para casa, deparou-se com a porta entreaberta. Pensou que fora eu quem a deixara assim ao entrar em casa, no entanto, não me encontrou no quarto ou em outro cômodo do apartamento. Acabou por concluir equivocadamente que ela própria havia se esquecido de fechar a porta ao sair de casa e só foi perceber mais tarde que pessoas estranhas ao nosso convívio haviam estado em casa no momento que saiu para se consultar.

Com pressa, tão logo chegou, colocou a bolsa no sofá e foi direto para a área de serviço, onde pôs um amontoado de roupas sujas para lavar. Seguiu para a cozinha e começou a preparar o almoço. Teve uma má intuição enquanto cozinhava, uma ligeira percepção de que alguma coisa não ia bem. Voltou para a área de serviço no que terminou de cozinhar e retirou uma braçada generosa de roupas limpas de dentro de um cesto para dobrá-las e guardá-las nos dois guarda-roupas que haviam na casa: o meu e o dela.


Por primeiro, dobrou uns pares de camisas e calças e os levou até o meu guarda-roupa. Antes que os guardassem porém, ainda no corredor que dava para o meu quarto, olhou para baixo e viu uma gota de sangue ainda úmida, caída no assoalho branco, e quase deixou as roupas caírem no chão de tão assustada que ficou. Passou os olhos no próprio corpo para saber se havia se cortado em algum lugar e viu que o sangue não era seu. Mesmo preocupada de que eu pudesse haver estado na casa e me ferido de alguma forma que não sabia qual, mamãe ignorou a gota de sangue com a prudente desculpa de que não fazia bem a uma gestante o nervosismo.


Foi dobrar então a outra parte das roupas limpas que retirou do cesto para que pudesse guardá-las no seu guarda-roupa, um guarda-roupa cujas portas e gavetas eram brancas, o restante de madeira envelhecida escura e os pegadores de metal bronzeado. Mamãe entrou no quarto e se deparou com uma mariposa preta pousada na cabeceira da cama. Cansada, espantou a mariposa pela janela e se sentou na cama com as roupas dobradas sobre as pernas. Não havia razão aparente para que, de repente, estivesse tão tensa e preocupada como estava naqueles instantes, descobriria o porquê imediatamente depois. Passado um minuto, se levantou da cama, apoiou nos braços as roupas que dobrou e abriu finalmente a porta do meio do guarda-roupa.


“Edvard!” - gritou.

Viu minha cabeça desfigurada, cuidadosamente posicionada bem no meio de duas pilhas de roupas.


FIM

14 de setembro de 2017

De Uma Breve Vida Breve em Edvard Hespanhol (PARTE 3 DO CONTO).

imagem ilustrativa de conto em blog sobre a ditadura

Oi, pessoal, "De Uma Breve Vida Breve em Edvard Hespanhol! é o sexto conto da coletânea Quilômetro Cinza e Outros Contos de Cabeça e abaixo você confere a 3° parte. Os contos foram publicados na Amazon. Você pode comprar o eBook ($4,50), clicando AQUI, ou o livro impresso (USD15,50), que você compra acessando AQUI. 
Boa leitura! 


De Uma Breve Vida Breve em Edvard Hespanhol


Nunca se verá unanimidade nem nas mais sólidas maiorias. Uma parte considerável dos que se faziam presentes no comício era composta por gente como eu, que também sentia repulsa pelo regime. Diferentemente de mim até então, eles integravam grupos e fraternidades, debates marginais, movimentos anarquistas radicalizados, uns ou outros moderados no passado, revolucionários, engajados em manifestos por toda a República do Álamo. Rafaelo liderava o principal deles: um grupo anarquista que se extremava cada vez mais na medida que recebia novos companheiros ainda mais idealistas e engajados do que os demais. Em pouco tempo, o grupo liderado por Rafaelo já era o mais ativo da Cidade do Álamo, a capital da república, e era bom no que fazia, conseguindo manter em segredo do governo não apenas sua existência bem como a identidade dos companheiros. Rafaelo veio até mim e se apresentou. No que igualmente me apresentei, foi direto ao assunto, me convidando a fazer parte do grupo. Por mais que explícito em meu rosto o interesse pelo convite, pedi uns dias para pensar e Rafaelo me deu então um retângulo de papel com um número de telefone impresso para que eu o procurasse quando tivesse a resposta. Antes de se afastar de mim e desaparecer no meio da multidão, pediu somente que me apressasse a respondê-lo com o argumento de que o grupo tinha pressa. “A semana que vem será muito importante para nós, e queremos que participe.” - disse. Tal proposta mereceu dois dias valiosos de uma reflexão sofrida.

Enquanto Jupecê discursava no comício, o Secretário de Justiça ia pessoalmente em casa, acompanhado de um delegado, um defensor público e um promotor de justiça, para cumprir um mandato de prisão contra papai. Ainda dentro de casa, o delegado, após cumprimentar educadamente mamãe, o prendeu em flagrante, já o defensor público fingiu defendê-lo, dizendo uma ou duas frases sem muita conexão com a acusação que lhe era feita pelo secretário, e o promotor de justiça fez o papel de juiz, autorizando a necessidade de sua prisão. “O senhor está preso sob o manto da lei.” - disse, o promotor. Papai foi levado para um prédio anexo a Secretária da Casa Civil, acusado de conspirar contra a ordem pública. Ficou detido por um dia e dez horas quando foi encontrado enforcado em uma sala improvisada como cela, com um lençol amarrado no pescoço, pendurado na janela. Muito longe de já não ter desconfiado no momento que soube da morte de papai, mais tarde é que descobri verdadeiramente o porquê. Não foi suicídio como o regime havia atestado. Papai fora covardemente interrogado ao tempo em que era torturado até a morte, e o motivo de tudo era que não confiavam nele.


Fizemos uma cerimônia de sepultamento com todos os amigos presentes. Devastada, mamãe tirava forças de onde parecia não haver, do deserto inóspito de sua alma, para que se mantivesse firme e permanecesse ladeada a mim enquanto se prostrava diante do caixão. Até que o viu descendo à sepultura.


“Tudo vai ficar bem. Não é mesmo, Edvard?”


“Sim, mamãe. A gente vai superar mais essa perda.”


“Não será fácil viver sem o nosso Áries. Ele era o seu herói. Não é mesmo, Edvard?”


“Sim, mamãe, mas ficaremos mais fortes depois de tudo isso. Tudo vai voltar ao normal, prometo.”


Me dedicaria para cumprir a promessa que a fiz pelo decorrer dos próximos dias, porém, ainda durante o sepultamento de papai, percebi que não seria fácil fazer com que as coisas voltassem de fato ao normal. Jupecê Piccolo apareceu no cemitério para oferecer as condolências do governo pela morte de papai. Estava protegido por um pequeno batalhão de soldados que faziam sua segurança, além de uma dezena de homens que o acompanhavam aonde quer que fosse. Dirigiu-se pessoalmente a mamãe e disse que sentia pela atitude extremada de papai, que o seu suicídio era uma lástima para todos na república e que já ordenara uma investigação criteriosa, a fim de que se dirimisse de uma vez por todas as circunstâncias da tragédia. Para quem Jupecê, porventura, estendeu a mão, foi cumprimentado com respeito. Tinha total confiança de que mamãe e eu havíamos acreditado que papai se suicidara, que a sua morte se explicava por um ato injustificado de desespero. Antes que fosse embora, disse-nos ainda que não viera prestar a solidariedade de seu governo apenas, que uma praça perto de onde morávamos, aquela que havia discursado no comício, seria nomeada com o nome de papai como forma de homenageá-lo, que mamãe receberia uma pensão para o resto da vida e que a conclusão de minha formação universitária, a partir daquele dia, estava plenamente assegurada pelos programas estudantis do governo. Respirei profundamente para não explodir de ódio.


“Não será aqui, na frente de todo mundo, que vou te matar.” - pensei. - “Terei a oportunidade de me vingar no momento mais oportuno, bem lentamente.”

Fui para o quarto descansar um pouco ao voltarmos para casa, enquanto que mamãe voltou a mergulhar o dedo indicador da mão esquerda dentro de sua inseparável xícara de chá. Fazia meses, quatro para ser mais exato, que havia contraído uma infecção na unha que não sarava nunca e que não sabia ao certo como a havia contraído. Malcheirosa e esverdeada, se fora decorrente de uma micose, se limpando a casa ou cozinhando, nunca soube. O mistério se resumia no fato de que a unha podre, além de nunca sarar, se restringia a um único dedo, o indicador da mão esquerda, e que nenhum doutor dava jeito. Parecia coisa mandada pelo diabo.

Então, por conta própria, mamãe inventou uma solução caseira para tratar a infecção. Duas vezes por dia, de manhã e no fim da tarde, socava um dente de alho no pilão até ter formado um creme, depois, punha-o na xícara com um pouco de vinagre morno e mergulhava o dedo dentro da xícara, onde o deixava até que julgasse tê-lo desinfetado o bastante. Certa vez, ao vê-la com o dedo mergulhado na solução, não aguentei a curiosidade e perguntei:


“Que água fedorenta é essa que você põe na xícara, mamãe?”


“Criei um desinfetante para o meu dedo, Edvard.” - ela respondeu. - “Tomara que funcione.”

De semana em semana, como que por um milagre, a unha acabou sendo curada.


Decisão tomada, entrei em contato com Rafaelo, dizendo então que aceitava a proposta, e marcamos de nos encontrar, no mesmo dia, em um galpão abandonado indicado por ele.


Eramos um sem-número de homens e mulheres de valor dispostos a resistirem. Rafaelo me explicou o plano. Tomaríamos o Palácio da República e mataríamos Jupecê Piccolo, por consequência, derrubando o regime. “Devolveremos a democracia à República do Álamo. A vontade popular voltará a ser ouvida e respeitada.” - disse a todos. Não se ouviram protestos em relação ao plano. Todos concordaram, inclusive eu. Quase imediatamente após explicar, Rafaelo bateu os olhos em mim e estranhou o meu olhar inseguro. Acabou percebendo que estava abatido, mesmo com todo meu esforço para disfarçar.


“Que foi que aconteceu, Hespanhol?” - veio até mim sob as atenções de todos. - “Quer nos compartilhar alguma coisa que aconteceu? Ou ainda acontece, não sei. Pode dizer, está entre amigos.”


“Perdi o meu pai.” - disse então - “Foi assassinado.”

Todos arregalaram os olhos para mim e Rafaelo perguntou:

“Como foi isso, Hespanhol?”


“Foi morto pelo regime a mando de Jupecê, eu não tenho dúvida disso. Mamãe estava em casa quando ele foi levado, preso, pelo Secretário de Justiça e por mais outros homens que disseram ser um promotor, um delegado e um defensor público. Tenho certeza de que o torturaram até a morte, até que papai confessasse que conspirava contra o regime. Jupecê não confiava nele.”


Oposto do que eu imaginava, Rafaelo não externou qualquer surpresa quando me ouviu dizer que meu pai fora assassinado. No instante seguinte, voltou a perguntar se eu aceitava o convite de entrar para o grupo. Respondi que sim, que não somente aceitava como me empenharia com o melhor e o mais furioso de mim.


“Uma pergunta: seu pai conspirava contra o regime?”


“Não. Infelizmente! Apesar de nunca ter se conformado com o golpe tanto quanto eu, ele achava, diferentemente de mim, que não valia mais a pena lutar por esse país. Morreu desiludido. Se eu já odiava Jupecê com todo o meu ser, depois de tudo, odeio agora muito mais. Por isso é que estou aqui e não vejo a hora de estar frente a frente com ele. Quero vê-lo sentir um pouco da dor que fez meu pai sofrer.”


FIM

13 de setembro de 2017

De Uma Breve Vida Breve em Edvard Hespanhol (PARTE 2 DO CONTO).


história sobre perseguições políticas em uma ditadura

Oi, pessoal, abaixo você confere a 2° parte do conto. Os contos foram publicados na Amazon. Você pode comprar o eBook ($4,50), clicando AQUI, ou o livro impresso (USD15,50), que você compra acessando AQUI. 
Confiram!

De Uma Breve Vida Breve em Edvard Hespanhol


Semanas antes que defrontasse com meu infortúnio, não sei bem qual fora exatamente o dia, se quarta ou se quinta, eu estava na biblioteca, meio que buscando me distrair de uma chateação que se definia pelo nome Silverclay, um amigo com quem mantinha um caso. Frequentávamos a mesma universidade, contudo, depois de discutirmos, havíamos terminado. De uma hora para outra, passou a achar que o motivo para eu não querer assumi-lo ia muito além do que aquele que eu alegava, que, na verdade, não era por eu temer o preconceito e as dificuldades que sofreríamos ao nos revelarmos namorados, mas que o motivo era dele ser negro, ou seja, que eu era racista.


Um despropósito e um completo absurdo que pensasse assim de mim! Éramos amigos desde a infância e morávamos no mesmo quarteirão. Na época de escola, íamos a um circo que não passava dois anos sem visitar a capital. Nas férias, jovens, zoávamos nas praias com altas noitadas, acompanhados por amigos e xícaras de café cheias de cachaça. Foi então que, quarta ou quinta, na biblioteca, tivemos a oportunidade de nos reencontrar após o término. Eu estava na biblioteca quando, ao me ver, disse que procurava um livro para um trabalho de curso, no entanto, percebi logo que isso não passava de pretexto para que nos reencontrássemos e pudéssemos finalmente esclarecer o mal entendido. Ainda me amava. Eu também o amava. Ao caminharmos até um canto mais afastado, nos beijamos, pedi desculpa, o mesmo acontecendo por parte dele, e reatamos.


Quis o destino que nos separássemos de uma vez por todas. Silverclay, ao voltar para o estacionamento, abriu a porta do carro e foi abordado por um rapaz que anunciou o assalto. Percebeu que havia deixado cair em algum lugar a carteira que jurava ter enfiado no bolso da calça. Desgraçadamente, tomado pelo nervosismo, pôs-se a correr, não conseguindo fugir do rapaz. Recebeu três tiros pelas costas, um deles atravessando o coração como agulha quente espetada em um pedaço de manteiga. Silverclay foi sepultado ao lado de seus pais adotivos, mortos há três anos de acidente de carro.


Nesse meio tempo, enquanto o caixão era colocado na sepultura, papai estava sendo interrogado pessoalmente pelo Secretário de Justiça, assim como mamãe havia sido. O secretário queria se assegurar de que não representássemos uma ameaça ao estado, seja qual fosse e por menor que viesse a ser. Mesmo ele tendo sido homem de confiança de Markoon, papai tinha a esperança de que, após liderar o golpe, Jupecê o esqueceria, ignorando a conhecida amizade de papai com o presidente renunciado. Mas não foi o que aconteceu. Jupecê Piccolo era habilmente detalhista e estratégico na busca de seus objetivos. Certificando-se de que papai não atentaria contra e nem trabalharia pela desestabilização do regime, e como quem perguntava por perguntar, o secretário quis saber onde ele estava na manhã que o presidente renunciara e teve a mesma resposta que mamãe havia lhe dado na vez que fora interrogada. Papai respondeu que comemorava seu aniversário com um jantar em família e alguns amigos próximos, omitindo que seus colegas de quartel estavam presentes no almoço.


“Eu fiz alguma coisa de errado, senhor secretário?”


“Não, senhor Áries. Não.”


“Tem certeza?”


“Claro!”


Mais tarde é que fui descobrir o motivo da omissão de papai. Ele sabia que os amigos tramavam contra o regime, embora ainda não soubesse exatamente o que. Desconfiado de papai, o Secretário de Justiça repetiu sua pergunta e papai reiterou sua resposta. Como quem busca desbaratar em uma armadilha mental a pior mentira dos mentirosos, indagando-o em um tom de voz um tanto quanto informal, quis saber o que papai achava da figura de Jupecê, se o achava confiável, digno de consideração. Papai, por sua vez, esperto e em um tom tranquilo de voz, respondeu que não o conhecia pessoalmente, que só o lembrava de nome e pela imprensa, e que, portanto, não guardava condições de emitir qualquer juízo em relação a pessoa, mas que, no geral, o achava respeitoso e respeitável. Para reforçar tal credibilidade, papai emendou que, se tivesse oportunidade, ficaria feliz e honrado em conhecê-lo. Posicionado na mesa, havia em sua frente uma foto de Jupecê, cercado pelo povo, que papai, vez ou outra, olhava com admiração. O secretário revelou-lhe então que teria essa oportunidade e que seria bem antes que imaginasse.

“Pois bem, meu caro Áries, estamos satisfeitos com suas informações. Jupecê Piccolo mandou informá-lo que deseja se encontrar com o senhor para tratarem de assuntos de política. É realmente um homem bastante agradável! O senhor aceita o convite?”


“Obrigado, senhor secretário. Aceito com muita honra.”


“Ótimo então, entraremos em contato quando isso for possível”


“Obrigado, senhor secretário.” - e papai, em seguida, se retirou da sala. Obviamente que aceitou demonstrando um falso entusiasmo diante de tal possibilidade. O encontro não tardaria a ocorrer.


A partir do momento que eu soube, pela boca de mamãe, que papai havia sido interrogado pessoalmente pelo secretário, interrogatório sem quaisquer motivos que os justificasse, a repulsa que sentia pelo regime começou a crescer em meu íntimo de um modo rude, gradual e sem controle.

“Vou entrar para uma fraternidade anarquista, um grupo rebelde, me tornar um revolucionário.” - decidi. Seja lá de que forma se fizesse a revolução, em que hora do dia se desse o ataque, era o certo, o justo, a minha única obrigação. - “Pode deixar, pai, que eu mato o filho da puta.”


Encontrar aqueles que partilhavam da mesma decisão que a minha foi fácil. Sequer precisei procurá-los pois vieram ao meu encontro quando menos esperava. Estavam misturados ao povo. Dezessete de abril, noite de sábado, soube que haveria um comício em uma praça próxima do prédio que morava, com a presença de Jupecê Piccolo. Cheguei no comício a tempo de vê-lo subir no palanque, erguido da noite para o dia pelos serventes do palácio, e iniciar o discurso. Jupecê era daqueles líderes cuja liderança aparentava ser natural, quase inerente à própria existência. Cativava, tinha carisma, simpatia e uma fala constante, progressiva, assertiva, que, com inusual facilidade, conquistava mentes e corações dispostos a ouvi-la. Era tão exímio orador que, poucos minutos depois que abriu a boca, era aplaudido pela maioria das pessoas. Confesso que, por um mísero minuto descuidado, até mesmo eu quase me deixo conquistar pelos ideais de justiça e desenvolvimento que defendia naquele momento, quase me esquecendo da repulsa que sentia por ele.


FIM

12 de setembro de 2017

De Uma Breve Vida Breve em Edvard Hespanhol (PARTE 1 DO CONTO).

galpão em que foram vistos golpistas antes do golpe

Oi, pessoal, "De Uma Breve Vida Breve em Edvard Hespanhol! é o sexto conto da coletânea Quilômetro Cinza e Outros Contos de Cabeça e abaixo você confere a 1° parte. Os contos foram publicados na Amazon. Você pode comprar o eBook ($4,50), clicando AQUI, ou o livro impresso (USD15,50), que você compra acessando AQUI. 
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De Uma Breve Vida Breve em Edvard Hespanhol


O dia era cinco de março, manhã de sexta, quando, em torno de vinte a trinta militares pelegos de um tempo de ditadura, se reuniram em casa pela terceira vez naquela semana. Era o aniversário de papai. O contrário de mim, que só com muito esforço consegui mostrar o mínimo de receptividade e polidez, papai os recebeu de braços abertos. Nunca me simpatizei com eles e posso jurar que o contrário também foi recíproco, nunca disseram mas sei que foi.

Haviam varado a noite na zona que frequentavam desde a juventude. Mas papai há muito que não os acompanhava, mais precisamente, abandonou a diversão há vinte e dois anos, no dia seguinte que conheceu mamãe, com quem se casou um mês depois de se conhecerem, oito meses antes de eu nascer. Mamãe trabalhava como garçonete na casa.


Os Hespanhol na República do Álamo que eu conhecia contavam-se nos dedos de uma mão, exatamente cinco, e olha que em casa eramos três: eu, mamãe e papai. O quarto Hespanhol era um primo desaparecido na visão dos meus pais, mas que, para mim, fora assassinado por aliados de Markoon, seu desafeto. Ativista político, criticava a corrupção de seu governo. O quinto Hespanhol era sua mãe, uma tia na qual não nos relacionávamos. Mamãe, por algum motivo que nunca conheci, havia brigado e se afastado da irmã.

Festas eram algo que se via com frequência em casa: festas de aniversários, de Páscoa, de Natal, de conquistas do campeonato nacional de futebol pelo Sport Republicano e outras que não me lembro, até as sem motivo. Nunca faltaram razões para que nos reuníssemos e comemorássemos, mesmo que a três. O aniversário de papai seria mais uma ocasião, sem nada de especial, mas não foi. Eu assistia televisão no quarto quando mamãe se aproximou e, com um rápido olhar, pediu que eu me juntasse a eles na sala, pois chegara o momento de cortar o bolo e dar os parabéns ao aniversariante. Comi logo o meu pedaço e voltei para cama, para frente da televisão, deixando-os a vontade para falarem de política.


“O nosso povo não sabe votar e, quando vê que alguém é firme e merece ser eleito, acha que não é bonzinho o suficiente. O nosso povo é burro, demagogo, não tem caráter.” - papai sentenciou tendo a concordância explícita dos amigos.


Não muito depois que deitei na cama e recoloquei os olhos na televisão, o plantão jornalístico interrompeu o filme que estava assistindo para uma notícia de última hora: a República do Álamo sofria um golpe de estado e o presidente Markoon era forçado a renunciar, exilando-se no estado vizinho da Paraíba, território brasileiro.


Jupecê Piccolo: esse era o nome do golpista. Deputado italiano na década de setenta, fora denunciado por associação criminosa e enriquecimento ilícito, porém, antes da condenação, fugiu para o Brasil e logo casou em Sergipe com Ana Cristina, prefeita de uma cidade do interior, recomeçando a vida e, assim como na Itália, ascendendo na política até então com relativo sucesso. Elegeu-se deputado estadual em três mandatos e depois foi suplente de senador, período nos quais suas tramoias transcorreram perfeitamente, até que se viu novamente às portas da justiça ao ser apontado como mandante do assassinato de Octávio Jardim, senador na qual era suplente. Quando ia ser condenado de novo, voltou a fugir, dessa vez, para a República do Álamo.


Desde então, viveu com o status de perseguido político na capital da república. Hábil e perigoso, a frente de um exército de cem mil homens seduzidos por seus ideais de justiça e igualdade, invadiu o Palácio da República, sede do governo, e obrigou Markoon a assinar a própria renúncia, tomando o poder.


E enquanto papai dava a entender não tomar conhecimento do golpe de estado, mamãe sentiu os seus efeitos logo na primeira segunda-feira após o golpe. Foi abordada por três policiais, informantes diretos da presidência, ao ir à feira comprar legumes e temperos para o acompanhamento de um assado que prepararia no jantar. Começaram a interrogá-la ali mesmo, às vistas dos feirantes e clientes que circulavam entre as barracas.


“A senhora é esposa de Áries Hespanhol?”


“Sim, sou esposa de Áries Hespanhol. Me chamo Beatriz. Por que?”


“A senhora saberá no momento devido o porquê da nossa pergunta. Agora, por favor, tenha a bondade de nos acompanhar até o Departamento de Polícia.”

“Agora, mas por qual motivo?”


“Sim, deve nos acompanhar agora mesmo. O porquê a senhora saberá no momento certo, já disse.”


Diante de tal persuasão, mamãe concordou em acompanhá-los então, porém, antes de entrar na viatura, perguntou educadamente:


“Posso ligar para casa para avisar a minha família aonde eu estou indo? Meu filho e meu esposo vão ficar muito preocupados se eu não chegar em casa antes do jantar.”


Um dos policiais respondeu com certa rispidez:


“Dona, por favor, facilita o nosso trabalho. A senhora pode pedir o que quiser ao Secretário de Justiça. A senhora é um problema dele, não nosso.”

Desse modo, prontamente convencida de que não conseguiria qualquer acordo com os policiais, mamãe os acompanhou, entrando na viatura. Ao chegarem no departamento de polícia, foi levada até uma sala no último andar do prédio, onde a esperava o Secretário de Justiça nomeado por Jupecê. Fui saber dias mais tarde e por ela própria que mamãe fora interrogada pessoalmente pelo secretário, que, a todo custo, queria saber tudo que pudesse a respeito do papai. Perguntou aonde ele estava, com quem estava e o que fazia precisamente no momento que o novo governo havia se instalado. Soube que, de todas as suas respostas, em quase todas havia mentido com destreza. De verdadeiro, mamãe assegurou ao secretário que papai comemorava seu aniversário e que tinha como provar isso pela data de nascimento, mas, de mentira, disse que fora apenas um jantar em família e mais três amigos mais próximos. O Secretário de Justiça acreditou, ou fingiu acreditar pelo menos.


FIM