Mostrando postagens com marcador O demônio dentro da gente. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador O demônio dentro da gente. Mostrar todas as postagens

18 de novembro de 2016

Crônica: O demônio dentro da gente.

Crônica sobre o agonia de um vizinho com câncer.

Antes de tudo, vale a explicação de que tratarei o personagem desta crônica simplesmente por S. E faço isso não por desprezo ou desdém, mas por respeito a uma pessoa cuja minha relação nunca se aprofundou. Lamentavelmente por sinal.

S está morrendo. Percebo isso a olho nu porque, diagnosticado com câncer de esofago, está cada vez mais magro, esquelético, o olhar opaco, como se, por dentro, não quisesse ou se resignasse em perder a vida. Será que é assim com todos que sabem que vão morrer? É assim com a maioria dos pacientes terminais?

S era daqueles fumantes que matavam um maço de cigarros todo dia, portanto, tem a sua parcela de responsabilidade com o que lhe acontece, o que não o transforma no vilão de si próprio, apenas um responsável por seu destino. S, nesse ponto, me incomoda profundamente pois me remete à minha mãe que também é fumante, e não menos assídua digamos assim. Fuma tanto quanto S fumava, e tão teimosa o quanto por não querer parar de fumar.

Acredito que todos temos um demônio dentro da gente. Entenda-se demônio como uma metáfora do mau. O demônio de S é seu câncer. O meu talvez ainda seja minha teimosia em achar que tudo tem jeito.

S está me ensinando com sua própria vida que não é bem assim. Não que seja importante para a plena compreensão dos fatos, mas S é casado com C, que está sofrendo muito com a possibilidade de perder o marido, e pai de dois filhos crescidos. Aliás, quem da sua família não estaria?

Meu pai Rubens, por exemplo, muio mais do que eu, está vivendo a jornada final de S bem de perto. Ontem, por duas vezes, levou-o ao hospital. S tem crises de dores pelo corpo. Ontem, as dores foram no braço. Dias atrás, vi S sentado no sofá da sua casa com o pescoço imobilizado; outro, reclamava de uma forte dor de cabeça.

Certamente, S merecerá uma ou mais crônicas neste blog até que o seu demônio o leve em definitivo. A morte de S, de certa forma, em algum grau além da minha compreensão, anuncia que também encontrarei com a minha.

Força, S!