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18 de setembro de 2017

Salvando o Coelho (CONTO).

coelhos brancos namorando

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Salvando o Coelho


Mas, afinal, por que é que os dois paraquedistas soltaram o coelho de um avião para depois irem atrás dele? Se perguntasse o que ele os fizeram, a resposta é rigorosamente nada, o que só aumenta a estupidez da coisa. Era um jogo, um desafio irresponsável cujo vencedor seria aquele que salvasse o coelho.

Um dia antes, Cláudio convidou Celso para o desafio. Celso mostrou certo receio em relação ao plano horas antes do embarque. Temeu que, por algum motivo suficientemente plausível para qualquer um com o mínimo de discernimento, não conseguissem salvar o coelho.

“Mas se a gente não conseguir pegá-lo?”

“Por que a gente não conseguiria alcançá-lo? É um coelho que não pesa quase nada. Vai ser como pegar um ursinho de pelúcia no ar. Deixa de ser frouxo!” - Cláudio insistiu. - “Qual é, companheiro? Não acha que ele vai sair voando para longe da gente quando for solto do avião, acha?” - instigou o amigo.

“Não sei, não.”

“Sabe sim.”

Cláudio não precisou insistir muito para que Celso concordasse. “Pensando bem, você tem razão. Vai ser divertido até.” - aceitou.

Sobrevoaram uma fazenda de café, sugestão do piloto no momento que foi convidado pelos dois colegas a participar do desafio.

“É só por precaução.” - argumentou, receoso de serem flagrados.

O coelho pertencia a filha única de Celso, Maria Isabel. No que Celso saiu de casa para ir ao hangar se encontrar com Cláudio e com o piloto, duas horas antes do que geralmente saía de casa para o trabalho, entrou no quarto da filha sem fazer barulho e apanhou o coelho que dormia na cama, levando-o consigo. Começou a ficar preocupado de que não pudessem alcançar o coelho pela primeira e última vez, quando já sobrevoavam o cafezal e já era tarde para desistir. Assim fizeram: soltaram o coelho e foram atrás para resgatá-lo. Um minuto depois, Celso abriu o paraquedas enquanto que o coelho já não se contorcia mais, desesperado com o que lhe acontecia. A três mil pés de altura, Cláudio, como uma flecha que perfura o ar, conseguiu finalmente alcançá-lo e abriu o paraquedas.

Cláudio aterrizou momentos depois, seguido por um Celso eufórico com o feito.

“Foi mais emocionante do que esperávamos!” - Celso se aproximou. E perguntou. - “Quando vamos fazer o resgate de novo?”

Cláudio respondeu com um semblante de espanto visível no rosto:

“Não vai haver outro salto.” - mostrou-lhe o coelho imóvel em suas mãos.

“Mas como é que ele morreu?”

“Deve ter morrido de medo.”

“Medo?”

“De infarto.”

Celso pensou em Mabel no mesmo instante.

“Não é possível; deixe eu vê-lo!” - viu que o coelho não tinha sinais vitais, que ele havia realmente morrido.

“Que vai fazer?” - Cláudio perguntou.

Sentindo-se culpado pelo que havia acontecido, Celso fez um ensurdecedor silêncio antes de responder:

“Minha filha não precisa saber o que fizemos.” - apressou-se em explicar. - “Vou levá-lo para casa agora mesmo e, quando ela acordar e me disser que seu coelho está morto, eu a confortarei dizendo que compro outro igual. Nunca vai descobrir que fomos nós.”

Cláudio não viu defeito no plano do amigo. Olhou-o nos olhos firmemente, com a segurança de quem concorda.

O dia ameaçava amanhecer. Celso deixou o cafezal então e se apressou em voltar para casa, levando o coelho morto consigo. Ao chegar em casa, ainda com a vestimenta de paraquedista que usara para saltar, certificou-se de que a esposa ainda não havia acordado e entrou no quarto da filha para colocar o coelho morto dentro da sua casinha. No instante seguinte de tê-lo colocado, a pequena Mabel surpreendeu o pai, flagrando-o dentro do quarto.

“Deu ração para o Peludinho?” - perguntou.

Celso olhou para a filha, nervoso. Não conseguiu responder nada.

“É cedo ainda. Peludinho não está com fome.” - Mabel não esperou resposta e se sentou na lateral da cama. - “Ele deve estar dormindo.” - disse.

Logo depois, para o pânico de Celso, Mabel se levantou e caminhou até a casinha do coelho para vê-lo de perto.

“Viu? Ele está dormindo mesmo.” - disse ao pai.

Mabel voltou a dormir enquanto que Celso foi para o banheiro trocar de roupa. Pôs a roupa de paraquedista para lavar e, sem fazer barulho, entrou no quarto onde a esposa dormia pesadamente.

“Vou preparar uma caneca de leite morno. Você quer?” - sentou-se na cama, acordando a esposa.

“Não, meu amor, obrigada.” - a esposa agradeceu. - “Mabel ainda está dormindo?” - quis saber.

“Sim, não se preocupe.”

Celso foi para a cozinha tomar o leite morno e se acalmar um pouco. Ainda estava muito nervoso, extremamente preocupado com a reação da filha quando descobrisse que o coelho que ganhara de presente de aniversário restava morto. Enquanto esteve na cozinha, ficou o tempo todo ensaiando uma forma de reagir à sua tristeza, até que, meia hora depois, Mabel apareceu com o coelho deitado nos braços.

“Que aconteceu, meu docinho?” - Celso colocou a caneca sobre o balcão e se preparou para confortar a filha.

“Nada, pai.” - Mabel respondeu. Acarinhava o coelho com o amor de sempre. - “Peludinho está dormindo.” - a menina disse baixinho para o pai ao ver que ele olhava fixamente para o seu colo.

“Não pode ser verdade.” - Celso soltou um riso inconformado.

Se aproximou da filha e, mesmo com alguma resistência por parte dela, pôs a mão sobre o coelho. Percebeu que ele, de fato, dormia e que, vez ou outra, até mexia as orelhonas brancas.

A menina, sem entender o que o pai queria dizer, indagou-o:

“Que é que não pode ser verdade?”

“Nada, docinho.”

E Celso foi correndo para o quarto se confessar com a esposa. Tudo aquilo não fazia sentido algum. Mabel seguiu-o. Ele adentrou o quarto e se aproximou da cama. A esposa dormia pesadamente, um dos braços estendido em direção ao chão.

“Meu bem, acorde!” - gritou.

Nada pôde ser feito.

“Cristeia!”

Deu-se por conta ali mesmo que uma coisa terrível havia se passado no quarto enquanto estivera na cozinha: a morte fulminante da esposa e do feto que ele só foi tomar conhecimento que ela carregava no ventre ao ser informado após a necrópsia.

“Volta para mim, meu amor! Não me deixa!” - implorou.

Abraçado com o corpo da esposa deitado na cama, Mabel e o coelho se aproximaram da lateral da cama.

“Que aconteceu com a mamãe?” - a filha perguntou.

“Mamãe está dormindo, docinho.” - respondeu.

“Que horas ela acorda?”

“Não, docinho, você não entendeu. Mamãe não vai acordar.”

“Por que, papai?”

“Porque Deus quis assim. Porque Ele quis.”

Dias depois, coisas tão ou mais piores continuaram acontecendo, definitivas ou não, provocadas ou não, mas nada com o coelho ou com a pequena Mabel. Cláudio e o piloto morreram em um desastre aéreo, uma praga abateu-se sobre o cafezal, que não deu mais nenhum pé saudável de café, e Celso ficou cego do nada.

“Deus não gosta da gente, papai?”

“Boa noite, docinho.”


FIM


5 de dezembro de 2016

Conto: Salvando o Coelho.

História de salvamento a um coelho, um conto ecológico, coelho branco salvado da morte por amigos

“Está pronto?”

“Tudo pronto.”

“Posso soltar o coelho?”

“Pode soltá-lo. Mas o solte apenas. Não o jogue.”

“À caça!”

O coelho branco não percebeu o que lhe aguardava. A doze mil pés de altura, só foi perceber que seria jogado para fora do avião no momento em que sentiu que ninguém mais o segurava, que despencava do céu como um anjo rejeitado pelo seu Senhor.

Cláudio, que até então o segurava no colo com gentileza e proteção, o colocou para fora da aeronave com uma das mãos, soltou-o no ar e saltou atrás, seguido por Celso, segundo paraquedista do esquadrão e seu amigo de longa data.

Desesperado, o coelho branco, indefeso e o único inocente de tudo que se passava, debateu-se violentamente nos primeiros quinhentos metros da queda, mas, depois, se resignou com o pior, parando de se contorcer. Teve a certeza de que ia morrer da forma mais estúpida que um coelho havia morrido em toda História conhecida: caído de um avião, no céu de um cafezal.

Mas, afinal, por que é que os dois paraquedistas soltariam o coelho de um avião para depois irem à sua caça? Se perguntasse o que fez para eles, a resposta é rigorosamente nada: o que só aumenta a estupidez do feito. Era tudo um jogo, um desafio irresponsável cujo vencedor seria aquele que salvasse o coelho.

Um dia antes, sem nada prestável para fazer, foi Cláudio quem convidou Celso para o desafio; Celso mostrando certo receio em relação ao plano horas antes do embarque. Temeu que, por algum motivo suficientemente plausível para qualquer um com o mínimo de discernimento, não conseguissem salvar o coelho.

“Mas se a gente não conseguir pegá-lo?”

“Por que a gente não conseguiria alcançá-lo? É um coelho que não pesa quase nada: vai ser como pegar um travesseiro no ar. Deixa de ser frouxo!” - Cláudio insistiu. - “Qual é, companheiro? Não acha que ele vai sair voando para longe da gente quando for solto do avião, acha?” - instigou o amigo.

“Não sei, não.”

“Sabe sim.”

Cláudio não precisou insistir muito para que Celso concordasse.

“Pensando bem, você tem razão. Vai ser divertido até.”

Na perseguição ao coelho, Cláudio esteve o tempo todo mais perto do coelho pois havia sido justamente ele quem saltara primeiro, logo após tê-lo soltado. Sobrevoaram uma fazenda de café durante o desafio: sugestão do piloto no momento em que foi convidado pelos dois colegas a participar do desafio.

“É só por precaução.” - argumentou, o piloto, receoso. - “Vai ter muito céu e muita terra. Ninguém vai atrapalhá-los.

O coelho pertencia a filha única de Celso, Maria Isabel. No que Celso saiu de casa para ir ao hangar se encontrar com Cláudio e com o piloto, duas horas antes do que geralmente saía de casa para o trabalho, entrou no quarto da filha sem fazer barulho e sequestrou o coelho de uma pequena jaula de ferro que servia como sua casa, levando-o consigo.

Ultrapassado cinco mil pés de distância da queda, Cláudio, pela primeira vez durante o voo, começava a ficar verdadeiramente preocupado de que não pudessem alcançar o coelho ao tempo em que Celso, um minuto depois, abriu o paraquedas. O coelho já não se contorcia mais, desesperado com o que lhe acontecia. A três mil pés de altura então, Cláudio, como uma flecha que perfura o ar, conseguiu finalmente apanhá-lo e, no segundo seguinte, abriu o paraquedas, a salvos. Ainda com o paraquedas aberto, percebeu que alguma coisa saíra fora dos planos.

Cláudio pousou no cafezal momentos depois, seguido por um Celso eufórico com o feito, que se aproximou.

“Foi mais emocionante do que esperávamos! Quando vamos saltar de novo?”

Cláudio respondeu com um semblante de gravidade estampado no rosto:

“Não vai haver outro salto.” - mostrou-lhe o coelho imóvel em suas mãos.

“Mas como é que ele morreu?”

“Deve ter morrido de medo.”

“De medo?”

“De infarto talvez.”

Celso pensou em Mabel no mesmo instante.

“Não é possível; deixe eu vê-lo!” - conferiu que o coelho que presenteara a filha no último aniversário não tinha sinais vitais, que ele havia realmente morrido.

“Que vai fazer?” - Cláudio perguntou.

Sentindo-se culpado pelo que havia acontecido, Celso fez um ensurdecedor silêncio antes de responder:

“Minha filha não precisa saber o que fizemos.” - apressou-se em explicar. - “Vou levá-lo para casa e, quando me disser que seu coelho está morto, eu a confortarei dizendo que compro outro igual. E pronto.”

Cláudio não viu defeito no plano do amigo. Olhou em seus olhos firmemente, com a segurança de quem concorda com o que acabara de ouvir.

O dia começava a amanhecer. Então, Celso deixou o cafezal e se apressou em voltar para a casa, levando o coelho morto dentro da mochila, no lugar do paraquedas. Ao chegar em casa, ainda com a roupa de paraquedista, certificou-se de que a esposa ainda não havia acordado e entrou no quarto da filha para colocar o coelho morto dentro da sua casinha. No instante seguinte de tê-lo colocado, a pequena Mabel surpreendeu Celso, flagrando-o dentro do quarto, de frente para a jaula.

“Deu ração para o Peludinho?” - perguntou-o.

Celso olhou para a filha, nervoso. Não conseguia responder nada.

“É cedo ainda, Peludinho não está com fome.” - Mabel não esperou resposta e se sentou na lateral da cama. - “Ele deve estar dormindo.” - disse.

Logo depois, para o pânico de Celso, Mabel se levantou e caminhou até a casinha do coelho para vê-lo de perto.

“Viu? Ele está dormindo mesmo.” - disse ao pai.

Mabel voltou a dormir enquanto que Celso foi para o banheiro trocar de roupa. Pôs a roupa de paraquedista para lavar e, sem fazer barulho, entrou no quarto onde a esposa dormia pesadamente.
“Vou preparar uma caneca de leite morno. Você quer?” - sentou-se na cama, acordando a esposa.
“Não, meu amor, obrigada.” - a esposa agradeceu. E quis saber. - “Mabel ainda está dormindo?”

“Sim, não se preocupe.”

Celso foi para a cozinha tomar o leite morno. Estava muito nervoso e extremamente preocupado com a reação da filha quando tomasse conhecimento do que provocara. Enquanto esteve na cozinha, ficou o tempo todo ensaiando uma forma de reagir à sua tristeza. Meia hora depois, Mabel apareceu com o coelho deitado no colo.

“Que aconteceu, meu docinho?” - Celso repousou a caneca sobre o balcão e se preparou para confortar a filha.

“Nada, pai.” - Mabel respondeu. Acarinhava o coelho com o amor de sempre. - “Peludinho está dormindo.” - a menina disse baixinho ao pai ao ver que ele olhava fixamente para o seu colo.

“Não pode ser verdade.” - Celso soltou um riso de puro inconformismo.

Se aproximou da filha e, mesmo com alguma resistência por parte dela, pôs a mão sobre o coelho. Percebeu que ele, de fato, dormia; vez ou outra, até mexia as orelhonas brancas.
A menina, sem entender o que Celso queria dizer, indagou-o:

“Que é que não pode ser verdade, pai?”

“Nada, docinho.”

E Celso foi correndo para o quarto se confessar com a esposa. Tudo aquilo não fazia sentido algum, começando pelo fato dele próprio ter cometido o erro, o crime. Mabel seguiu-o. Adentrou o quarto e se aproximou da cama cuja esposa dormia pesadamente, um dos braços caído em direção ao chão.
“Meu bem, acorde!”

A esposa não acordou.

“Cristéia!” - deu-se por conta ali mesmo que uma coisa insuportavelmente mais terrível havia se passado no quarto enquanto estivera na cozinha: a morte fulminante da esposa e do feto que ele só foi tomar conhecimento horas depois que ela carregava no ventre. - “Não me deixa! Volta para mim, meu amor!” - implorou.

Abraçado com o corpo da esposa deitado na cama, Mabel e o coelho se aproximaram da lateral da cama.

“Que aconteceu com a mamãe?” - a filha perguntou.

Celso respondeu:

“Nada, docinho, mamãe está dormindo.”

“Que horas ela acorda?”

“Não, docinho, você não entendeu. Mamãe não vai acordar.”

“Por que, papai?”

“Porque Deus quis, docinho, porque Deus quis.”

Dias depois, coisas tão ou mais piores continuaram acontecendo, definitivas ou não, provocadas ou não, mas nada com o coelho ou com a pequena Mabel. Cláudio e o piloto morreram de desastres aéreos, uma praga abateu-se sobre o cafezal que não deu mais nenhum pé saudável de café e Celso ficou cego do nada.

“Deus não gosta da gente, papai?”

“Boa noite, docinho.”


FIM.