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7 de setembro de 2017

Cabeça de Cachorro (PARTE 02).

igreja católica de missa por dentro em conto

Segue a segunda parte do conto...

Vânia voltou a se dirigir a um Barilari que enfileirava uma porção de revistas dentro da banca.
“Então, senhor jornaleiro, tem o jornal antigo para me vender?”

“Infelizmente, não senhora Vânia, no entanto, já que a senhora precisa tanto de um, pode voltar amanhã que eu trago alguns que tenho guardado em casa, e sem falta. Pode ser?”


“Sim, obrigada, senhor jornaleiro.”

“De nada, senhora.”

A mulher se virava para ir embora com um certo ar de vitória no rosto quando Barilari, de um modo descontraído e urgente, chamou-lhe a atenção.


“Senhora!”

“Sim?”

“Me chamo Barilari caso esteja interessada em saber o meu nome.”

“Obrigada pela informação, senhor Barilari. Amanhã eu volto para comprar o jornal.”


“De nada.”

E a mulher se afastou, indo embora.

Barilari e Gustavinho atravessaram o dia fazendo companhia um ao outro. Ao chegar a noite, Barilari fechou a banca e pegou o ônibus que parava em um ponto na praça para voltar para casa, enquanto que Gustavinho adormeceu ali mesmo, na entrada da banca.

Vânia retornou cedo do dia seguinte conforme prometera. Chegou tão cedo que Barilari ainda não havia aberto a banca e o menino Gustavinho dormia na entrada.

Cumprimentou-o:

“Bom dia, Gustavinho.”

Sonolento, Gustavinho respondeu:

“Bom dia, dona.”


“Dona não, por favor. Esqueceu-se que meu nome é Vânia?”

“Acho que sim, me desculpe.”

Ainda sentado na entrada da banca, Gustavinho se espreguiçou, espantando o resto de sono que ainda sentia e, imediatamente depois, olhou para baixo, para os pés de Vânia, e viu dois detalhes que julgou inusitados: os sapatos e as meias estavam trocados, as cores e os modelos dos sapatos não combinavam.

“É a última moda em Paris.”

“Em Paris?”

“Sim.”

“Mas é estranho, dona.”

“Não se diz estranho, se diz diferente! E o meu nome é Vânia, já disse.”


“A senhora gosta de ser diferente?”


“Sim, todo mundo gosta.”


“Todo mundo?”

“Todo mundo.”


“Eu também?”


“Sim, só que não sabe.”

“Não sei?”

“Não sabe.”

No minuto seguinte, Barilari desceu de um ônibus e veio caminhando em direção aos dois. Não esperava rever Vânia tão cedo.


“Bom dia, senhora Vânia. Bom dia, Gustavinho.”

Foi cumprimentado de volta pelos dois.

“Veio buscar os jornais antigos?” - perguntou então para a mulher.

“Sim, por quê? Se esqueceu?”

“Não, eu trouxe. Estão aqui, dentro da pasta, pode ficar com todos. É cortesia da casa.”

“Disse que queria comprá-los, não disse?”


“Sim, mas...”

“Quanto custam?”

“Bem, consegui nove jornais publicados no ano passado.” - colocou uma pequena pilha de jornais velhos sobre o balcão. - “Custam cinquenta centavos. É promoção.”


“Tudo isso? Estão caros!”

“Reclamou quando disse que seriam de graça e agora reclama do preço! Quanto pagaria por eles então?”

“Quarenta e nove centavos.”

“São seus!”

“Certo, aqui está o dinheiro.” - entregou uma nota de um real ao jornaleiro que logo guardou embaixo de uma pilha de revistas. - “Vou deixá-los na banca e volto para pegá-los mais tarde.” - emendou.


“Certo.” - Barilari não fez objeção.


O menino Gustavinho, ao tempo em que Barilari não conseguia disfarçar a curiosidade em vê-la tão interessada naqueles jornais velhos, foi se afastando da banca ao ir atrás de um cachorro de rua, até que desapareceu. Havia se cansado da companhia daqueles dois.


“Preciso deles para analisar o futuro.” - disse, Vânia, para Barilari, referindo-se aos jornais.


“Analisar o futuro?”


“Sim, este é o meu trabalho. Já consegui impedir a volta da Segunda Guerra Mundial por duas vezes.”


Barilari, no momento seguinte, notou a ausência de Gustavinho.


“Aonde ele foi?”


“Quem?”


“Ora quem, o menino que estava aqui!”


“Não. Não. Não sei, não.” - Vânia pensou um pouco. - “Juro que não sei. Será que ele não entrou na igreja?”


“Talvez.”

“Talvez sim ou talvez não?”


“É provável que sim.”

Vânia e Barilari, tão logo entraram na Igreja Matriz São Francisco de Sales, depararam-se com um outro menino sentado na última fileira de bancos, só que esse diferente de todos os outros que já haviam visto. O menino latia sem parar e tinha a cabeça de um cachorro. Não chorava ou falava, latia igual a um cãozinho perdido de seu dono. Longe de sentir medo ou receio, Vânia se sentou no banco da igreja e o menino com cabeça de cachorro aconchegou-se em seu colo. Já Barilari, encantado diante de tamanha docilidade, limitou-se a observá-lo. Ainda na igreja, deram ao menino o nome de Francisco em homenagem a São Francisco de Assis.


“Que você quer fazer agora, Francisco?” - Barilari o perguntou.


“Quer dar uma volta na praça?” - Vânia emendou.


O menino com cabeça de cachorro latiu, dando-lhes a entender que a resposta era sim. Seguraram então as mãozinhas miúdas de Francisco e os três deixaram a igreja. Levaram-no para passear. Francisco que, pelo que parecia, sempre fora metade menino e metade cachorro, ao atravessar a porta e pisar na praça, correu até uma árvore, onde só não fez xixi porque teve a atenção chamada por Vânia, que disse:

“Meninos educados vão ao banheiro e não fazem xixi na rua. Você é um menino educado, Francisco?”


“Francisco é educado, mas também é metade cachorro.” - Barilari respondeu por ele. - “Talvez muito mais cachorro porque tem cabeça de um.”

Vânia sorriu para o menino, concordando com Barilari.


Cheio de disposição, Francisco pôs-se a brincar de correr em volta dos dois que também entraram na brincadeira. Com algazarra, imitavam tudo que o menino com cabeça de cachorro fazia, correndo atrás dele.

Foi então que um prestativo bispo da cidade, o Dom Frutuoso, que visitava a igreja dia sim e dia não, atravessou a praça, se aproximou dos dois e, intrigado com o que viu, perguntou-lhes o que faziam. Havia visto que eles pulavam sozinhos e depois corriam de um lado para o outro sem razão aparente. Vânia e Barilari responderam que estavam brincando com Francisco, um menino que tinha cabeça de cachorro. O bispo perguntou onde estava o tal menino, pois não o enxergava. De pronto, Barilari pediu que olhasse para baixo para que o visse deitado no chão, perto dos seus sapatos velhos; contou-lhe que devia estar exausto de tanto correr e pular. O bispo atendeu o pedido. Olhou para baixo, mas não viu o menino mesmo assim. E nem o podia ver afinal já que Francisco não existia. Dom Frutuoso concluiu o que já se dava como óbvio desde os primeiros momentos: tratavam-se de dois doentes mentais. “Pobres coitados!” - exclamou.

Solidário, o bispo fingiu participar da brincadeira. Disse para Vânia e Barilari que um outro cachorrinho havia corrido para dentro da igreja sem que eles percebessem, e sugeriu que fossem todos atrás dele. Vânia e Barilari concordaram prontamente. Os três entraram na Igreja Matriz São Francisco de Sales, onde, com perspicácia, o bispo conquistou a confiança dos dois e, a partir de então, providenciou que fossem internados em uma clínica psiquiátrica, onde vieram a ser tratados com humanidade. Prometeu-os que lá encontrariam outros meninos com cabeça de cachorro.


“Receberei jornais antigos, padre?” - Vânia perguntou. - “Preciso muito deles.”


“Certamente que sim, minha filha.” - Dom Frutuoso prometeu.



FIM


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6 de setembro de 2017

Cabeça de Cachorro (PARTE 01).

cabeça de cachorro em igreja

Caros, olha eu aqui de novo! 
Compartilho com vocês a primeira parte do meu conto intitulado Cabeça de Cachorro. É o terceiro conto da coletanea Quilômetro Cinza e Outros Contos de Cabeça, publicada na Amazon. Você pode comprar o eBook ($9,99), clicando AQUI.
Comprem o eBook com os 16 contos que está muito barato e vamos à primeira parte do conto então!

Cabeça de Cachorro (PARTE 01)


“O amor é assim na vida mas não é com todos.” - ele dizia para todos essa frase.

Antes que a madrugada desse passagem a mais um dia e a primeira alma viva surgisse para a missa na Igreja Matriz São Francisco de Sales, construção principal da Rua do Leite, Barilari abriu sua pequena banca de jornais e revistas. O dia anterior havia sido fraco. Quase não tinha conseguido vender nada e externou confiança de que venderia mais naquele dia, que sobraria algum trocado para pagar as contas atrasadas da casa e para pegar um cineminha no próximo final de semana, com a mulher e os filhos. Até que, aquele que pensou ser o primeiro cliente do dia, não demorou a chegar: um menino maltrapilho que caminhou até a frente da banca.

“Pois não, garotinho, o que procura? Está perdido? Como se chama?” - saiu da banca mostrando-se atencioso.

O menino nada respondeu. Deu-lhe as costas, caminhou até um banco de cimento próximo e lá ficou.

Barilari permaneceu dentro da banca, de onde, não conseguindo deixar de se mostrar preocupado com o menino, ia olhar para o banco vez ou outra para ver se continuava lá, sentado e sem ninguém. “Está com fome? Tem sede?” - o menino continuou sem falar com Barilari.

Foi então que se levantou e voltou para a frente da banca, onde Barilari separava uns jornais velhos das revistas de esporte.

“É Gustavinho.”

“Que foi que disse?”

“Disse que meu nome é Gustavinho.”

“Então você fala!” - Barilari comemorou. - “Gustavinho é seu nome?” - buscou confirmação.

“Sim.”

Barilari guardava em uma mochila dois sanduíches que comeria no almoço. Ofereceu-os junto com uma garrafinha de suco de laranja e outra com água. O menino assassinou a fome e a sede ali mesmo, sentado na entrada da pequena banca de jornais. Depois que comeu os dois sanduíches e tomou toda a garrafinha com água e a de suco de laranja, Gustavinho ia se levantando para ir embora quando Barilari perguntou:

“Você mora e dorme onde, garotinho?”

“Eu moro onde der para eu morar, não tem importância, e durmo onde ninguém fica me olhando. Ninguém gosta de gente vendo a gente dormir, não é verdade? Aqui na praça, ali na porta do banco, onde der eu fico.” - Gustavinho voltou a se sentar na entrada da banca.

Depois da resposta, Barilari teve a inequívoca confirmação de que o menino vivia realmente nas ruas, conforme havia concluído. Imediatamente, encarou-o com doçura, zelo e carinho.

“Também não gosto de ser observado dormindo. Ninguém gosta, você tem razão. Posso lhe fazer companhia por hoje?”

Gustavinho acenou que sim com a cabeça.

“Nunca te vi na praça e olha que faz anos que trabalho aqui. Não acha engraçado, Gustavinho?”

“Talvez.” - o menino respondeu. - “Eu sempre vou de um lugar para o outro todo dia e toda hora. Qual é o nome dela?”

“Dela, quem?”

“Da praça. Onde eu disse que dormia!”

“Praça da Rua do Leite.” - Barilari respondeu. - “Bem, na verdade, a praça não tem nome, não. Nós é que a chamamos de Praça da Rua do Leite porque fica na Rua do Leite. E aquela é a Igreja Matriz São Francisco de Sales.” - apontou para a construção que se destacava no centro da praça.

“Construíram uma igreja em uma praça que não tinha nome?”

“Sim.” - Barilari sorriu diante da ingenuidade do menino.

“Então, se aquela é a Igreja Matriz São Francisco de Sales e a igreja fica dentro da Praça da Rua do Leite, o nome da praça deveria ser Praça da Igreja Matriz São Francisco de Sales e não Praça da Rua do Leite, não é verdade?”

“Acha mesmo isso?” - Barilari incentivou-o a continuar argumentando.

“Sim.” - Gustavinho garantiu.

“Você é um menino muito inteligente, Gustavinho.”

O homem e o menino ainda conversaram interessadamente sobre a praça por mais alguns minutos até que uma mulher veio caminhando até a banca.

“Que deseja, senhora?” - Barilari se apressou a atendê-la.

“Um jornal, por favor.”

“Qual desses a senhora quer?” - indicou um mostruário na parte de fora da banca.

“Esses não, quero um outro, o mais velho que tiver."

Barilari apanhou embaixo do balcão um jornal que havia pegado para ler no dia anterior e mostrou à mulher.

“Pode ser esse?”

“Esse é o mais velho que você tem?”

Barilari respondeu com educação:

“Sim, senhora.” - explicou educadamente. - “Geralmente, quem compra jornais gosta de ler as notícias do dia. É para isso que servem: para contar o que acabou de acontecer ou está acontecendo. Coisas da modernidade, sabe?”

Convencida de que o jornaleiro estava errado, a mulher replicou:

“Bobagem! Os melhores jornais são os antigos, pode acreditar, porque aí sim é que a gente sabe se ele é sério ou não. Repito, bobagem! Como jornaleiro, já devia saber isso."

Barilari não quis discutir. Fez com a cabeça que concordava com a mulher, que, por sua vez, ao ver que Gustavinho a observava com especial atenção, mudou de assunto e perguntou ao jornaleiro:

“Esse garotinho bonito é seu filho?”

“Talvez.”

“Talvez sim ou talvez não?”

“Talvez sim. É um filho de alma que eu acabei de ganhar. O nome dele é Gustavinho.”

A mulher se dirigiu ao menino.

“Olá, Gustavinho!”

“Olá, dona.”

“Dona não, por favor! Pode me chamar de Vânia.”

“Vânia?”

“Vânia, isso mesmo.”

“Certo então. Vou te chamar de Vânia, Vânia.”

“Obrigada, Gustavinho.”

“De nada, Vânia.”

LEIA A SEQUÊNCIA DO CONTO NA PRÓXIMA POSTAGEM!