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23 de dezembro de 2016

A Menina de Gabrovo: Segunda Parte do Capítulo "Mau Agouro".

Imagens de sutileza e agonia


Parecia um lobo faminto encarando a presa. O modo cínico como o viajante a observava causou repulsa em Liza.

“Somos novos por aqui e estamos perdidos.” - explicou, o viajante, que não perdeu tempo e foi logo perguntando. - “Pode nos dar uma informação?”

Em resposta, Liza não disse nada. Apenas acenou que sim.

“Essa cidade é, realmente, muito bonita.” - disse, o viajante, com sarcasmo. - “Onde a gente está?” - perguntou para Liza, ao mesmo tempo que sorriu para o companheiro, divertindo-se com o medo que ela se esforçava para não transparecer.

“Em Gabrovo.” - respondeu, Liza, quase sem voz.

“Desculpe, mas a gente não ouviu.”

Ele foi se aproximando dela, seguido, de perto, pelo outro viajante.

“Gabrovo!” - Liza respondeu, só que dessa vez em voz alta.

Ao vê-los se aproximarem vagarosamente, Liza pensou em correr para dentro da casa e trancar-se no quarto junto com a filha para, assim, protegê-la a todo custo. - “Eles são mais rápidos do que eu.” - pensou e se perguntou, convencendo-se de que tivera uma péssima ideia. - “Que chances eu poderia ter? Vão me alcançar antes mesmo de eu atravessar a porta. Não se desespere, Liza.” - obrigou-se a ficar tranquila. - “Não seja tão estúpida de levar o perigo para dentro de casa.”

Foi, então, que os viajantes sorriram, revelando o que queriam de verdade.

O homem, que a havia cumprimentado, dizendo serem novos na cidade, se revelou o mais cruel. Enquanto o companheiro, pelas costas, a segurava e beijava-lhe os cabelos, ele derrubou Liza no chão, depois de um forte soco no estômago, e deitou encima dela.

“Por favor, vão embora!” - gritou, a jovem mãe, que implorava para que fossem logo embora e, assim, não entrassem na casa. - “Por favor, me deixem em paz!”

Qualquer violência que eles empunhassem contra ela seria o menor dos males desde que Klara estivesse protegida.

“Cale-se, sua vadia barata!” - respondeu, o viajante, pressionando-a, com o próprio corpo, contra o chão.

Como que por uma intervenção divina, após saciarem suas respectivas perversidades, as súplicas de Liza foram atendidas no momento em que ouviu-se uma conversa distante, e que parecia se aproximar, de um grupo de amigos que caçavam na mata. Os dois viajantes se levantaram do chão, correram para o carro e, temendo serem flagrados, se apressaram em fugir. Mesmo dolorida, fraca e severamente humilhada, Liza encontrou forças e se colocou em pé. Andou, cambaleando, até a casa e foi direto para o quarto da filha, onde toda a esperança do mundo pareceu se esvair no momento em que se aproximou da cama. Ao colocar as mãos sobre a filha, sentiu que o rostinho da menina estava frio.

Klara já não respirava mais. Estava morta.


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22 de dezembro de 2016

A Menina de Gabrovo: Primeira Parte do Capítulo "Mau Agouro".

sentimento de agonia, tristeza profunda

Liza precisou se afastar da filha e respirar ar puro para se recompor da tristeza que a abateu. Apesar de mostrar-se forte, sentia que a perdia para a peste cinzenta.

“Meu Deus, quando esse pesadelo vai acabar?” - perguntou, com os braços estendidos em direção ao céu nublado.

Klara, nesse meio tempo, pouco conseguiu dormir. A dor que sentia por tentar encher seus pulmõezinhos de ar era implacável e a manteve acordada durante todo o tempo. Da janela do quarto, podia-se ver uma montanha, que, embora quase toda coberta de neve, era tão imponente quanto a montanha que Liza havia descrito na história que contara, e podia-se também ouvir o ruído das águas do rio Yantra, parcialmente congelado. Mãe e filha moravam, sozinhas, num sobrado, cujas as paredes eram brancas e as janelas eram feitas com um tipo de madeira escura. A casa parecia ser grande demais para somente duas pessoas viverem nela e era cercada por um extenso gramado. Não tinha muros, tampouco portão que a protegesse da cobiça externa.

Liza, ao deixar o quarto da filha, atravessou o gramado, caminhou até a margem do rio e, caindo de joelhos no chão, olhou fixamente para as águas verdes-escuros. O Yantra, de algum modo, parecia confortá-la.

“Por favor, devolva-lhe a vida!” - pensando na filha, abriu o peito para a correnteza e clamou ao rio.

Não admitia a ideia de perder a única coisa que lhe importava na vida. A cada segundo que passava, morria lentamente ao se dar conta que a estava perdendo para a tuberculose. Diante disso, ofereceu a própria vida em troca da cura de Klara.

Leve-me se quiser, mas não permita que ela morra!”

Sua oferta sequer foi ouvida. Ainda debruçada na margem do rio, Liza sentiu, aquecendo lhe o rosto, um chiado soprar morno. Era um presságio de mau agouro se aproximando. Imediatamente, começou a ouvir o ronco de um motor e sentiu muito medo.

“Não se desespere, Liza.” - aconselhou a si própria. - “Klara está dormindo no quarto, portanto, trate de ser forte e não leve o perigo para dentro de casa.”

O ronco do carro só se intensificava na medida em que o mau agouro se aproximava.

Moravam cercadas por uma mata densa e seu vizinho mais próximo provavelmente chegaria tarde demais caso a ouvisse gritando por socorro. A jovem mãe búlgara, então, se levantou, mas não saiu do lugar. Estava absolutamente certa em relação ao perigo que ela e a filha corriam.

Dois viajantes, a bordo de um Benz Patent Motorwagen, vinham, esganiçados, distribuindo terror pelo leito do rio, e, assim que viram Liza, pararam imediatamente.

Bom dia, senhorita.” - um deles a cumprimentou.


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