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6 de janeiro de 2017

O TOMATEIRO (3° parte do capítulo).

Tomateiro, passarinhos cinzas em um céu azul

Yordanka, ao ouvi-lo apresentar-se, também apresentou a neta e voltou a perguntar:

“O nome dela é Klara, ela é minha neta. Pode nos ajudar?”

“Não se preocupe, a cerca não vai impedir a menina de comer quantos tomates quiser.” - Kristo se prontificou a resolver o impasse. - “Não fiz só a cerca.” - revelou. - “Tem uma entrada bem perto daqui.”

Avó e neta o seguiram e, após contornarem quase metade da cerca, atravessaram-na finalmente.

“A gente chegou, vovó?” - perguntou, a menina de Gabrovo.

“Sim, querida, esse é tomateiro que havia falado.” - respondeu, Yordanka, que quis saber. - “Está feliz?”

“Sim, vovó.”

“Mesmo?”

“Aham.”

“Que bom ouvir isso, querida!”

Klara, logo em seguida, se enfiou no meio da plantação. - “Eles devem ser muito gostosos.” - pensou, fascinada com a beleza daqueles tomates. Sentia-se plena por estar ali. Era um sentimento que não tinha explicação e não tinha lógica alguma, mas que, de certa forma, a confortava.

“Posso pegar um tomate?” - perguntou à avó, que a seguiu pela plantação.

“Sim, minha querida.” - respondeu, Yordanka, autorizando-a. - “Pegue quantos quiser.”

Com as duas mãos, Klara arrancou o tomate de uma das plantas que estava mais próxima e cravou os dentes nele. Já, na primeira mordida, sentiu a boca encher-se de um suco vermelho, adocicado e refrescante. Aqueles tomates não eram só vermelhos e brilhantes, eram, também, extremamente deliciosos. Nunca provara tanto sabor.

Enquanto a menina saboreava o tomate, Kristo se aproximou de Yordanka e lamentou:

“É, realmente, uma pena. Tão pequena, tão sozinha!”

“Está enganado.” - discordou, Yordanka, que, em voz baixa e veemente, assegurou, dizendo. - “Ela tem a mim. De agora em diante, ficará comigo. Vou cuidar dela e protegê-la. Klara não está sozinha.”

“Onde a encontrou?”

“No parque Lipnik.” - Yordanka respondeu. - “Assim que soube de tudo, não pensei duas vezes em ir ao seu encontro. Dormia como um anjo, como um puro e inocente anjo.”

A voz de Yordanka soou pesadamente até os ouvidos de Kristo, que, por sua vez, ainda preocupado com a menina, continuou:

“O que fizeram com ela?” - se referia ao ataque sofrido por Liza, na margem do rio Yantra, enquanto implorava pela saúde da filha.

Kristo estava preocupado com o futuro de Klara.

Em uma tristeza que só se fazia aumentar, referindo-se aos viajantes que atacaram a filha, Yordanka se limitou a responder:

“Foram repugnantes, covardes e cruéis.”

“O que fizeram com ela?” - Kristo insistiu.

“Não quero mais falar sobre isso.”

A velha não disse mais nada. Amável, voltou as atenções para a neta, que, após saborear o primeiro tomate, foi logo perguntando:

“Posso pegar mais um, vovó?”

“Sim, querida.” - respondeu, Yordanka.

Notando que a pequena hesitava em pegar outro tomate, Yordanka escolheu, pessoalmente, o mais graúdo e vermelho que encontrou e ofereceu à neta.

“Tome, querida, prove-o e me diga se gostou.”

Klara pegou o tomate com as duas mãos e cravou os dentes nele.

“Gostou?” - perguntou, Yordanka.

“Sim, vovó.”

Feliz, novamente sentiu a boca encher-se de um suco extremamente saboroso.


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4 de janeiro de 2017

O TOMATEIRO (2° parte do capítulo).

Ilustração artística de um tomateiro

“Mas quem será que fez isso?” - perguntou-se, a velha, que encarava a cerca. Sem dizer mais nada, ela tocou o arame com a ponta dos dedos e resmungou. - “A gente dá as costas por um mísero segundo e as pessoas já revelam o quanto são mesquinhas.”


Enquanto a avó olhava em volta, na expectativa de flagrar o autor de tamanho egoísmo, Klara se limitou a olhar para dentro da cerca. - “Devem ser muito gostosos.” - pensou, a menina faminta. Nunca havia visto tomates tão vermelhos e brilhantes.

Foi, então, que Yordanka concluiu, após muito pensar, o que parecia ser óbvio.

“Só pode ter sido ele.” - disse para si própria, categórica.

“Quem, vovó?” - perguntou, Klara, ao ouvi-la.

“Kristo.” - respondeu à menina.

“Quem é Kristo?”

“Kristo é um amigo da vovó.” - respondeu, Yordanka, que, ao voltar as atenções para a cerca, se esforçou para manter a inabalável paciência que lhe era tão peculiar. - “Foi ele quem cercou o tomateiro.” - acrescentou.

“Por que?” - a pequena búlgara quis saber.

“Não sei, querida.” - a velha respondeu, dizendo. - “Também estou muito curiosa para saber.”

No momento em que Yordanka, ao lado da neta, pensava em um modo de fazer um buraco na cerca, Kristo apareceu caminhando atrás delas.

“Não vai me apresentar?” - ele perguntou, com ar de cinismo, referindo-se à Klara.

Aparentava ter cerca de quarenta anos, era gordo e tinha os cabelos curtos e despenteados. Era, também, alguns palmos mais baixo do que Yordanka, que, por sua vez, não precisou olhar para trás para descobrir quem havia feito a pergunta. Sem esperar que Yordanka o respondesse, Kristo voltou as atenções para Klara.

“Qual é o seu nome, menina?” - perguntou educadamente.

A pequena, porém, desconfiada, não o respondeu. Limitou-se a encará-lo. Percebendo que a menina estava receosa com a presença do homem, Yordanka obrigou-se a abrir um sorriso.

“Bom dia, Kristo.” - cumprimentou-o e foi logo perguntando. - “Como está?”

“Bem.” - ele respondeu.

“Aproveitando que está aqui, gostaria de fazer uma pergunta.” - a velha estreitou os olhos para ele e perguntou, em tom pomposo. - “Por acaso, você sabe quem pôs a cerca?”

“Cerca?” - Kristo, em resposta, a provocou, fingindo não saber sobre o que ela falava. - “Sim, a cerca!” - exclamou, apontando para a plantação de tomates. - “Sim, eu estou reconhecendo. Ela é minha.” - confessou.

“A cerca é sua.” - Yordanka fingiu surpresa. Sua irritação só crescia. - “E os tomates, eles também são seus?” - provocou-o.

“Não.”

“Ora, diabos! Então, me explique por quê cercou o tomateiro!”

Na medida que os segundos passavam, a velha respirava mais profundamente, controlando-se para não atacá-lo.

“Bem, eles estão ficando muito famosos.” - respondeu, Kristo, sarcástico, sobre os tomates. - “Somente nessa semana, não mais do que isso, esteve aqui uma pequena multidão que colheu quase todos.” - concluiu, se justificando. - “Se não pusesse a cerca, os tomates acabariam rapidamente.”

“E quem disse que os tomates são seus?” - desafiou, Yordanka, inconformada com tamanho egoísmo.

“Não me lembro de dizer que eram meus.” - serenamente, Kristo se defendeu. - “São de todo o mundo.” - ressaltou. - “Por isso mesmo a cerca se fez necessária.”

Silenciosa, Klara assistia a discussão, estupefata, sem saber o que fazer.

“Tudo isso por causa de uma cerca?” - pensou. Ao virar-se e olhar para a plantação, perguntou. - “A gente não vai poder entrar, vovó?”

“Não diga tamanha bobagem, minha querida.” - Yordanka, em resposta, sorriu carinhosamente. Deu-se conta, então, que aquela discussão não iria levá-la a lugar algum. Encarou Kristo, respirou fundo e disse. - “Chega de falatório, está bem. A menina quer alguns tomates, pode ajudar?”


“Mas é claro!” - caloroso, Kristo respondeu, piscando para a menina, que, mesmo tímida, retribuiu com um discreto sorriso. - “Que grosseria a minha ainda não ter me apresentado.” - pôs a mão sobre os cabelos de Klara e se apresentou. - “Meu nome é Kristo, sou um velho amigo da sua vovó.”


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2 de janeiro de 2017

O TOMATEIRO (1° parte do capítulo).

Artes de tomates e de tomateiros, passarinhos comendo tomates

Ainda caminhavam quando, por um instante, Klara viu algo, que pareceu ser um pássaro de asas brancas muito maior do que qualquer outro que ela já havia visto na vida, pousar atrás de uma árvore.

“O que é aquilo, vovó?” - perguntou, curiosa.

No mesmo instante, Yordanka olhou na direção que a menina apontava. Porém, não viu nada.

“Onde, minha querida?” - perguntou de volta.

“Um passarinho pousou atrás da árvore.” - respondeu, Klara, inocentemente. E acrescentou. - “Ele é bem grande. Eu vi ele.”

A velha, então, parou e, atentamente, ficou olhando para a árvore na expectativa de que o tal pássaro aparecesse, mas não se tratava de nenhum pássaro. Um anjo, com as asas abertas, saltou detrás da árvore e desapareceu, voando por cima da mata.

“Não é um pássaro, minha querida.” - disse, Yordanka, explicando com absoluta naturalidade. - É um anjo.”

“Um anjo!” - pasma, Klara arregalou os olhos. - “Existe anjo, vovó?” - perguntou, a pequena.

“Sim, querida, anjo existe.” - respondeu, Yordanka, como se não houvesse resposta mais lógica para a pergunta. Sorrindo para a neta, perguntou. - “Por que acha que eles não existiriam?”

Precisava contar à sua mãe, o quanto antes, sobre sua descoberta. Liza, então, não mentira nas vezes em que contou histórias sobre anjos. Não era uma simples desculpa para fazer a menina dormir. Tentando se convencer de que não estava sonhando, Klara se sentiu importante ao saber que anjos existiam.

Invés de responder a pergunta da avó, a pequena búlgara fez outra pergunta:

“Ele mora na montanha?” - referia-se ao anjo que saltou detrás da árvore e à montanha cigana das histórias que sua mãe lhe contava.

“Qual montanha?” - Yordanka quis saber.

“A montanha onde os anjos ciganos moram.” - respondeu, Klara. - “Aquele anjo mora lá.”

“Eu não sei, querida.” - disse, Yordanka, amorosamente. - “Mas, seja onde for que aquele anjo more, deve ser um lugar muito bonito.” - concluiu.

Klara estava curiosa em saber aonde ela e a avó estavam indo. Sem demora, fez outra pergunta:

“A gente chegou, vovó?”

“Ainda não.” - paciente, a voz de Yordanka nunca perdia seu tom amável. Perguntou à neta. - “Me diga, o que você mais gosta de comer?”

“Tomate.” - respondeu, a pequena, de imediato.

A velha se divertia com a ternura e a curiosidade sem fim da menina.

“Apenas tomate?” - perguntou, Yordanka, sorrindo.

“Sim, vovó.” - confirmou, Klara, apressando os passos para acompanhá-la. – “Eu gosto muito de tomate!” - exclamou.

“Pois, então, vou te mostrar um lugar onde podemos encontrar os mais deliciosos tomates de todo o mundo.” - diante do crescente entusiasmo da menina, prometeu à neta.

“É para lá que a gente está indo?”

“Sim, querida.”

A menina de Gabrovo, contente por saber que tinha uma avó tão legal, mal conseguia conter sua ansiedade.

Depois de um certo tempo, Klara e Yordanka viram-se fora do parque Lipnik. Ao passo que caminhavam, a mata se abria, revelando uma vegetação rasteira com somente algumas árvores e a mesma trilha de terra na qual haviam percorrido dentro do parque, embora um pouco mais larga.

Seguindo a trilha, não demorou até que Klara avistasse a plantação de tomates no alto de uma encosta.

“A gente chegou?” - perguntou, a menina.

“Sim, querida.” - respondeu, Yordanka.

Contudo, aproximando-se um pouco mais da encosta, veio a desagradável surpresa. Yordanka bufou ao ver que uma cerca de arame farpado delimitava a plantação.


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