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30 de janeiro de 2017

Manifestos da Infância: Senhor Polvo, Castilho e as águas-vivas.

Arte de criaturas marinhas no fundo do mar

Em meio a um silêncio completo, Senhor Polvo repousava em sua toca no fundo do mar e nada o preocupava, pois não havia nenhum predador ou ameaça por perto. Descansava tranquilo e preguiçosamente, no entanto, seu descanso não durou muito. Um certo camarãozinho minúsculo se aproximou da toca como quem parecia visitar um parque de diversões.

O camarãozinho se chamava Castilho.

“Senhor Polvo, você está aí?” - ele perguntou sem esperar resposta. E invadiu a toca, dizendo. - “Não se preocupe comigo porquê eu já estou chegando.” - tão rápido entrou, viu o polvo com os olhos fechados e seus oito braços, um abraçado com o outro, e não hesitou em despertá-lo. - “Ora, não seja tão preguiçoso assim!” - exclamou enquanto o observava dormir. - “Vai, seu molenga, acorda!”

O dia, fora da toca, estava lindo no fundo do mar: os peixinhos, as ostras e os moluscos brincavam alegremente. Contudo, nada parecia motivar o molusco dorminhoco a interromper seu descanso.

“Ainda está muito cedo.” - respondeu, Senhor Polvo, sem sequer movimentar um braço. - “Vou dormir só mais um pouquinho.” - disse.

“Chega de dormir!” - persuadiu, o insistentemente camarãozinho. Justificou. - “O dia está bonito demais para você ficar, aqui, nessa toca escura e fria.” - ele se aproximou um pouco mais do polvo e o repreendeu. - “Deixa de preguiça, já passou da hora de acordar!”

Senhor Polvo pareceu nem mesmo tê-lo ouvido. Permaneceu encolhido em sua toca no que Castilho continuou insistindo.

“O que vamos fazer no dia de hoje?” - perguntou, o camarãozinho, que o convidou. - “Estava pensando que a gente poderia procurar os peixes piratas no recife. Vai ser muito legal!”

Era bastante comum ver os peixes piratas por lá. Longe de serem maus, eram muito corajosos, aventureiros e rebeldes, sem falar da fama de heróis que ganharam por defenderem os bichos mais fracos dos valentões e grandalhões que viviam pelo fundo do mar. Em geral, a bicharada gostava dos peixes piratas. Reza a lenda que, certo dia, ao avistarem uma ostrinha encurralada por um bando de tubarões bárbaros, eles não apenas expulsaram os tubarões como todos demais valentões que existiam no recife para sempre. Lenda ou não, os tubarões não nunca foram vistos nadando por aquelas bandas. Castilho não se cansava de repetir essa história para Senhor Polvo, que, convicto de que não conseguiria voltar a dormir, aceitou o convite do amiguinho.

“Está bem, eu vou com você.” - disse, ele, levantando imediatamente uma ressalva. - “Mas se a gente não achar os peixes piratas eu volto para a minha toca e você faz de conta que eles nunca existiram. Entendeu o que eu disse?” - perguntou. - “E vai me deixar dormir o quanto eu quiser.”

Demonstrando então que concordava com a ressalva, o camarãozinho limitou-se a dar um sorriso vitorioso.

“Combinado!” - exclamou.

Não demorou para que deixassem a toca, antes, porém, Senhor Polvo, curioso, quis saber:

“Por que você está com tanta pressa em procurar os peixes piratas? Ainda está cedo. Não podia deixar para um pouco mais tarde?”

Castilho não escondeu a surpresa com a pergunta. Havia se esquecido completamente de que nunca contara seu grande sonho ao melhor amigo.

“Você ainda não sabe?” - encarou Senhor Polvo com olhar de enorme importância. - “Quero ser um pirata.” - revelou, o pequeno camarãozinho, que ainda concluiu. - “A partir de hoje pode me chamar de Castilho, o Camarão Pirata.”


* * * * *

Assim que deixaram a toca, Senhor Polvo e Castilho seguiram em direção ao recife.

O camarãozinho se mostrava ansioso em encontrar os peixes piratas, já Senhor Polvo, embora externasse ceticismo diante dessa possibilidade, intimamente, não conseguia esconder a expectativa de que eles pudessem de fato existir.

Castilho confidenciou ao amigo:

“Sabe, faz tempo que eu não vejo a hora de a gente encontrar eles.”

“Tomara que sejam legais.” - emendou, o polvo, que volta e meia bocejava de sono.

Foi quando atravessavam os destroços de um navio de pesca naufragado e chegavam perto do recife que ouviram então um som que se assemelhava a um choro agudo.

“Que barulho estranho é esse?” - Senhor Polvo chamou a atenção do camarãozinho. Perguntou. - “Você não está escutando?”

“Um barulho?” - Castilho não ouvia nada. - “Que você está ouvindo?” - indagou-o.

O som de choro soava bem fraquinho, quase inaudível.

“Tem alguém chorando.” - respondeu, Senhor Polvo, cada vez mais convencido de que escutava o que escutava. O molusco dorminhoco voltou a perguntar. - “Não está ouvindo nada, tem certeza?”

Castilho ficou em silêncio na tentativa de escutar o tal choro. O choro continuava bem fraquinho, difícil de ouvir portanto, até que, em certo momento, o silêncio do camarãozinho valeu a pena.

“Agora eu estou ouvindo!” - comemorou, mas logo minimizou a preocupação do amigo. - “Deve ser alguma lagostinha boba chorando, nada demais. Acho melhor a gente seguir em frente.”

Estava com pressa de encontrar os peixes piratas, mesmo assim Senhor Polvo foi insistente.

“Seguir em frente, tem certeza?” - perguntou. - “A gente não está fazendo nada que seja muito importante para não poder ajudar. Isso não é o correto e nem o legal a se fazer. Um pirata de verdade ajudaria quem precisasse de ajuda.”

Depois de reclamar baixinho durante alguns instantes e ver que não conseguiria convencer o amigo de continuar, Castilho concordou em ajudar então.

“Está certo, a gente vai ver quem é que está chorando.” - resmungou, dizendo. - “Pirata que é pirata nunca nega socorro a quem precisa.”

Senhor Polvo e o camarãozinho ficaram quietos a fim de escutar de onde vinha o choro. Perceberam que não vinha de muito longe, apesar de soar baixinho, e, ao seguirem o som, se depararam com uma pequenininha água-viva.

“Por que você está chorando?” - prestativo, Senhor Polvo perguntou.

“Porque eu estou com medo.” - a pequenininha respondeu.

O camarãozinho, por sua vez, também demonstrou presteza assim que a viu chorando.

“O que aconteceu?” - quis saber. - “Alguém te machucou?”

“Não.” - respondeu, a água-viva, que ainda chorava. Disse logo em seguida. - “Ninguém me machucou, eu estou bem. Eu só estou triste porquê me perdi.”

“Se perdeu?” - perguntou, Castilho.

“Sim.” - ela confirmou. Ao suspirar profundamente, não refutou em explicar. - “Eu estava nadando junto com o meu grupo de águas-vivas quando veio uma correnteza e me levou para longe. Eu não sei onde eles estão agora.”

Ao dizer isso para o polvo e o camarãozinho, a água-viva abriu um imenso berreiro.

“Não precisa mais chorar.” - tranquilizou-a, Senhor Polvo, prometendo. - “A gente vai te ajudar.”

“Isso mesmo.” - emendou, Castilho. - “Pode contar com a gente.”

A água-viva, após externar agradecimento pela ajuda, perguntou:

“Vocês prometem?”

“Lógico que sim!” - exclamou, Senhor Polvo.

“A gente vai te ajudar.” - garantiu, Castilho.

A essa altura dos acontecimentos, o camarãozinho quase não se lembrava mais dos peixes piratas. Ele, Senhor Polvo e a pequenininha começaram a procurar as águas-vivas prontamente.


* * * * *


O polvo se mostrava tão orgulhoso e, de alguma forma, tão recompensado em procurar as águas-vivas que não parava de fazer perguntas na busca de informações ou pistas que pudessem ajudá-los.

“Faz muito tempo que você se perdeu?”

“Não, eu acho que não.” - a pequenininha respondeu, ligeiramente confusa.

“Você se lembra como era o lugar onde estava quando se separou do grupo?”

Pensativa, a água-viva ficou quieta durante quase um minuto.

“Eu não me lembro muito bem, mas acho que não era diferente do local que vocês me encontraram chorando.” - disse em tom de reflexão. - “Era até bem parecido. A correnteza não deve ter me levado para muito longe do meu grupo. Eles devem estar perto da gente e ainda devem estar procurando por mim.” - a água-viva encarou Senhor Polvo, Castilho e perguntou. - “Vocês vão continuar me ajudando a procurá-los, não vão?”

“Não precisa ficar preocupada com isso.” - tranquilizou-a, Senhor Polvo, assegurando. - “A gente prometeu que iria te ajudar a reencontrá-los e é justamente isso que a gente está fazendo.”

Senhor Polvo e o camarãozinho logo perceberam que ajudar a pequenininha água-viva não seria uma tarefa das mais fáceis. O fundo do mar, além de bonito, exuberante e misterioso, é também imensamente extenso e fácil de se perder, porém, esforçados, mantiveram a promessa. Por quais motivos não ajudariam a pobrezinha? Um pirata de verdade ajudaria.

Se enfiando entre os corais, Senhor Polvo se preocupava em olhar com atenção em toda a parte, mas não achou nenhum rastro que os levassem até elas, já Castilho e a pequenininha água-viva nadavam lentamente, sem pressa. Foi então que uma certa tartaruga, que nadava em sentido oposto, veio ao encontro dos três. Senhor Polvo e o camarãozinho a reconheceram imediatamente.

“Olá, Velha Tartaruga.” - cumprimentou-a cordialmente, Senhor Polvo. - “Como vai indo?” - perguntou.

“Eu vou bem, obrigada.” - respondeu, a tartaruga, que viu a água-viva próxima de Castilho e perguntou. - “E essa pequenininha aí, quem é?”

Envergonhada, a água-viva não externava qualquer atitude diante da Velha Tartaruga e Castilho, percebendo sua timidez, apressou-se em apresentá-la:

“Ela é nossa nova amiguinha.” - disse. - “A gente a encontrou chorando perto dos corais.”

“Ela está perdida.” - acrescentou, Senhor Polvo. - “A senhora, por acaso, não viu um grupo de águas-vivas flutuando por aqui, viu?”

A Velha Tartaruga, com ar de estranhamento, encarou o polvo e respondeu sem convicção:

“Águas-vivas? Embora elas sempre passem por aqui acho que hoje não vi nenhuma. Bom, não me lembro mais e já não tenho tanta certeza. Por que você está me perguntando isso? Me deixou curiosa.”

O camarãozinho e a água-viva se entreolharam, desapontados não apenas com a resposta mas com a pergunta.

“Nossa amiguinha se perdeu do seu grupo.” - respondeu, Senhor Polvo, olhando carinhosamente para a pequenininha água-viva. - “A gente está ajudando ela a reencontrar as outras águas-vivas.” - voltou a perguntar. - “Tem certeza que não viu nenhuma água-viva flutuando por aqui?”

Nesse meio tempo, Castilho e a pequenininha água-viva limitavam-se em observar a tartaruga com uma atenção que só se fazia aumentar. Tinham expectativa de que ela oferecesse alguma informação que os levassem até as outras águas-vivas. A Velha Tartaruga pensou, repensou e só na sequência respondeu a pergunta de Senhor Polvo:

“Ah, sim, agora me lembrei!” - exclamou, finalmente dizendo. - “Eu vi um grupo de águas-vivas flutuando por aqui sim. Elas realmente pareciam procurar alguém. E estavam com pressa.”

A pequenininha água-viva não escondeu sua extrema felicidade com a informação.

“Ouviram, elas estão me procurando!” - comemorou e, rapidamente, quis saber. - “Por que disse que elas estavam com pressa?”

“Bom, isso eu não sei.” - a tartaruga respondeu. - “Não pude perguntar. É que a pressa delas não pareceu ser nada grave para mim, então, não me preocupei. Me desculpe.”

“A senhora viu em que direção as águas-vivas foram?” - Castilho a indagou.

“Ah, sim, elas foram para o norte.” - indicou, a tartaruga, completando. - “Elas foram na direção da Grande Rocha, onde ficam os mexilhões.”

Ao terminar de ouvi-la, a pequenininha água-viva, no mesmo instante, olhou, esperançosa, para o camarãozinho Castilho, que não hesitou em abrir um discreto sorriso, contente com a informação.

“Obrigado, velha amiga.” - agradeceu, Senhor Polvo, desejando. - “Tenha uma boa viagem!”

“De nada, foi um prazer ajudar essa criaturinha adorável.” - respondeu, a tartaruga, que olhou para a água-viva sem esconder a satisfação em ter conseguido ajudá-la. - “Boa sorte e tomara que vocês encontrem as águas-vivas que procuram!” - desejou-lhes.

Depois disso, a tartaruga seguiu por um caminho, já Senhor Polvo, Castilho e a pequenininha água-viva, cheios de entusiasmo, seguiram por outro, rumo a Grande Rocha.


* * * * *

Duas coisas se faziam certas enquanto procuravam: a pequenininha não conseguia disfarçar a ansiedade de reencontrar seu grupo e a expectativa dos três não parava de aumentar.

Foram então direto para a rocha dos mexilhões, no entanto, não demorou para que avistassem Gentil, um tubarão-martelo que vinha nadando ao encontro deles.

“Olá, pessoal, como vão?” - cumprimentou-os, o tubarão.

Assim como a Velha Tartaruga, Gentil também pareceu conhecer o polvo e o camarãozinho.

“Olá, Gentil!” - Senhor Polvo retribuiu o cumprimento. - “A gente está bem, obrigado.” - respondeu.

“Olá!” - emendou, Castilho, monossilábico.

Imediatamente após cumprimentá-los, Gentil percebeu a presença da pequenininha água-viva, que flutuava ao lado do camarãozinho, e percebeu também que ela estava receosa e com um certo medo claramente causados pela sua presença.

“Não vai me apresentar?” - em tom afetuoso, o tubarão-martelo perguntou para Castilho.

De pronto, o camarãozinho a apresentou:

“Ela é nossa amiga.” - disse. - “Ela se perdeu do seu grupo e a gente está ajudando a se reencontrarem.”

“Isso mesmo.” - emendou, Senhor Polvo. Logo em seguida, perguntou ao tubarão-martelo. - “Por acaso, você não viu uma água-viva flutuar nessas águas do mar, viu?”

Como se não houvesse escutado a pergunta, Gentil imediatamente voltou as atenções para a pequenininha, mostrando a mesma preocupação que todos externavam quando ficavam sabendo da sua história.

“Você está sozinha?” - perguntou.

“Aham.” - timidamente, a pequenininha água-viva limitou-se a responder. - “Sim, eu estou.”

“Não se preocupe porque eu vou te ajudar.” - prometeu, o tubarão-martelo.

Nem terminou de ouvir a promessa, a pequenininha água-viva olhou para Senhor Polvo e para Castilho, desconcertada. Todo mundo havia prometido a mesma coisa e, até aquele momento, ela não reencontrara seu grupo.

Senhor Polvo interveio, indagando Gentil:

“Então você sabe aonde as águas-vivas foram? Sabe onde elas estão?”

“Sim, eu sei.” - o tubarão-martelo respondeu, prestativo. - “Elas foram para a rocha dos mexilhões. Estão lá com certeza.”

“Você pode levar a gente até elas?” - foi a vez de Castilho perguntar.

O camarãozinho o ouvia com muita atenção.

“Lógico que posso!” - Gentil exclamou. Referindo-se a pequenininha água-viva, disse-lhes. - “Será uma enorme alegria para mim ajudá-la a reencontrar o seu grupo.”

Assim sendo, o tubarão-martelo se juntou ao Senhor Polvo e ao camarãozinho na nobre missão que assumiram. Não lhe custaria nada ajudar a pobrezinha. Ele deu meia-volta e foi nadando na frente dos três, indicando-lhes o caminho.


* * * * *


Nadaram relativamente pouco para que chegassem na Grande Rocha, que, conforme imaginavam, encontrava-se coberta de mexilhões.

Castilho, Senhor Polvo, Gentil e também a pequenininha não conseguiam avistar qualquer coisa que indicasse a presença das águas-vivas, mesmo olhando em volta e atentos a tudo que avistavam.

“Eu não estou vendo elas, Gentil.” - disse, Castilho, perguntando ao tubarão-martelo. - “Você está vendo as águas-vivas?”

Antes que Gentil pudesse responder, a pequenininha água-viva percebeu uma movimentação em um canto da rocha. Era uma água-viva do seu grupo que brincava de pique-esconde, despreocupada e rodeada pelos mexilhões.

“Eu estou aqui!” - chamou-a.

Senhor Polvo, Gentil e Castilho encararam a água-viva no mesmo instante, claramente sem entender o motivo do seu chamado.

“Que houve?” - quis saber, o polvo.

Ainda não haviam visto a água-viva brincando na rocha.

“Ela está ali!” - apontou, a pequenininha, extremamente alegre. E emendou. - “Eu estou vendo uma das águas-vivas do meu grupo! É ela mesmo, eu tenho certeza!”

Ao avistarem-na, foram todos ao encontro dela, que, por sua vez, ao reencontrar a pequenininha água-viva que havia se perdido do grupo e ver o polvo, o camarãozinho e o tubarão-martelo se aproximando, ficou muda inicialmente, sem qualquer reação. As duas se encararam por alguns instantes, receosas uma com a presença da outra, mas começaram a conversar:

“Oi, estou feliz de te ver novamente.” - cumprimentou-a, a amiguinha do Senhor Polvo e do camarãozinho.

“Oi.” - respondeu, a outra água-viva. - “Que aconteceu com você? Onde você estava?” - perguntou.

“Eu me perdi do grupo.”

Senhor Polvo, Castilho e Gentil, o bondoso tubarão-martelo, apenas assistiam a conversa das duas que pareciam duas pequenininhas e graciosas águas-vivas gêmeas.

“A gente estava te procurando.” - continuou, a água-viva, para a amiga que se perdera. - “Onde você estava?” - perguntou.

“Eu também estava procurando vocês.” - respondeu, a pequenininha água-viva, olhando para trás e vendo que o polvo, o camarãozinho e o tubarão-martelo acompanhavam de perto a conversa, como que esperando serem apresentados. - “Eles são meus amigos. Eles me ajudaram a encontrar você.” - completou, perguntando. - “Onde estão as outras águas-vivas?”

No segundo seguinte que a pequenininha fez a pergunta, o grupo com as demais águas-vivas se aproximou. Eram muitas e flutuavam majestosamente ao redor deles.

“Finalmente a gente te encontrou.” - suspirou, aliviada, uma das águas-vivas do grupo, à pequenininha que havia se perdido.

“Aonde você foi?” - perguntou, uma outra, preocupada.

“Eu não fui para lugar nenhum.” - a pequenininha água-viva respondeu, mais uma vez explicando porquê se separou do grupo. - “Eu me perdi; juro que não tive culpa. Veio uma correnteza e me levou para longe.”

As atenções das águas-vivas estavam tão direcionadas à pequenininha que pareciam nem notar que Senhor Polvo, Gentil e Castilho estavam presentes na Grande Rocha. Eles assistiam o reencontro do grupo, visivelmente orgulhosos por terem conseguido ajudá-las.

Assim que ouviu a explicação da pequena, uma terceira água-viva se aproximou.

“Oh, pobrezinha!” - lamentou. E quis saber. - “Você se machucou?”

Com doçura, a pequenininha respondeu que não.

Somente um pouco depois é que as águas-vivas notaram que não estavam sozinhas.


* * * * *

Mostrando-se apreensivas, as águas-vivas encurralaram Senhor Polvo, Gentil e Castilho por todos os lados, sinalizando assim para que dissessem o porquê de estarem ali. Afinal não sabiam se eles representavam uma ameaça à segurança do grupo. Estavam prontas para o ataque, porém, conforme a apreensão foi passando e vendo que nenhum dos três tinha o intuito de atacá-las, perceberam que não corriam perigo e tranquilizaram-se de uma vez.

“Olá, águas-vivas, como estão?” - Senhor Polvo as cumprimentou amistosamente. - “Desculpe a nossa falta de educação.” - sem esperar resposta, o polvo foi logo se apresentando e apresentando os amigos consecutivamente. - “Meu nome é Senhor Polvo, esse é o Gentil e esse é o pequeno Castilho.”

Não menos amigáveis, Gentil e Castilho então sorriram para as águas-vivas.

“Olá, como vão?” - retribuindo os cumprimentos, uma delas se apresentou e apresentou o grupo. - “Eu sou a líder das águas-vivas dos corais amarelos. Somos pacíficas e, se não querem nos fazer mal, também não precisam ter medo da gente. A gente estava procurando uma das nossas que se perdeu.”

Ao terminar a apresentação ela olhou carinhosamente para a pequenininha água-viva que, ainda contente por reencontrar o seu grupo, encontrava-se distraída brincando com as amiguinhas e os mexilhões. Castilho, por sua vez, bastante curioso em saber mais sobre aquelas águas-vivas, colocou-se ao lado de Senhor Polvo.

Disse, ele:

“A gente está feliz por ter encontrado a pequenininha. Não precisa agradecer. Foi uma honra ter conseguido ajudar.”

“Então vocês ajudaram ela?” - perguntou, a líder das águas-vivas, surpresa com a revelação do pequeno camarãozinho.

“Sim.” - assegurou, Castilho, orgulhoso. De pronto, ele explicou. - “A gente estava nadando perto de um recife quando ouviu a pequenininha chorando. Ela bem disse que havia se perdido do grupo.”

Senhor Polvo, ouvindo atentamente a explicação, lembrou-se que Gentil não estava presente no momento em que a encontraram e fez a correção:

“Nosso amigo, o tubarão-martelo, não estava no recife quando encontramos a pequenininha, mesmo assim sua ajuda foi muito importante para chegarmos até vocês.” - disse para a líder das águas-vivas. - “Ele se juntou a gente um pouco depois, mas foi decisivo para que nós as encontrássemos.”

Agradecido pela correção, Gentil acenou positivamente e o camarãozinho continuou a explicar. Contou do rápido encontro que tiveram com a Velha Tartaruga e disse, inclusive, sobre seu sonho de ser pirata. A líder das águas-vivas, ao fim da explicação, ficou tão agradecida por ajudarem a pequenininha que não achava um modo de retribuir, até que se lembrou do sonho do camarãozinho.

Rapidamente, lhe fez o convite:

“Seria maravilhoso se você pudesse viajar com a gente!” - exclamou, perguntando na sequência. - “Não deseja entrar para o nosso grupo?”

Surpreendido, o camarãozinho encarou Senhor Polvo sem saber o que fazer. Sempre foram muito amigos, quase irmãos, e nunca havia pensado em se afastar dele. Não encontrava o que dizer, tampouco pensar, mas que outra decisão poderia tomar o pequeno camarãozinho se desbravar os mares era o que ele mais sonhava na vida?

“Você acha que eu posso ser um de vocês?” - perguntou, Castilho, para a líder das águas-vivas.

“Sim, não tenho nenhuma dúvida disso.” - convicta, a água-viva assegurou. - “Nós não somos piratas, mas você pode viajar com a gente se quiser. Vai ser divertido e também vai aprender muita coisa nova que talvez não saiba.”

A resposta fez-se óbvia. Não havia mais tempo para pensar pois tratava-se da realização de um sonho. E sonhos, por mais pequenininhos ou ingênuos que pareçam, nunca devem ser ignorados. Em nenhuma hipótese! Castilho aceitou o convite.

Antes de ir, o camarãozinho voltou suas atenções para Senhor Polvo e ao amigo tubarão-martelo.

“Está na hora de partir.” - afirmou primeiramente ao polvo, dizendo. - “Agora, faço parte do grupo. Desisti de ser um peixe pirata, quero ser uma água-viva.”

Senhor Polvo, contente pelo amigo, limitou-se a desejar:

“Boa sorte, Castilho, tenho certeza que você será uma grande água-viva!”

O camarãozinho sorriu, agradecido, e voltou-se então para o amigo, o tubarão Gentil.

“Adeus.” - despediu-se, dizendo com descontração. - “Vou sentir saudades de você, seu grandessíssimo tubarão boboca.”

Gentil respondeu:

“Adeus, seu camarãozinho danado, e boa sorte. Também vou sentir saudades.”

Por fim, após o término das despedidas, Castilho foi ao encontro da líder das águas-vivas, que o levou para junto das outras, e partiram em viagem. Sem que nunca encontrasse um peixe pirata ou se tornasse um deles, Castilho logo se misturou ao grupo e, na companhia das novas amigas, viveu momentos inesquecíveis e incríveis aventuras pelos recantos mais encantados dos mares.

Um camarãozinho pequenininho nunca foi tão feliz da vida!


FIM.

7 de dezembro de 2016

Manifestos da Infância: Aninha, Dona Fada e os Sapatinhos de Brilhantes.

Coelhos cor de rosa, sapatinhos de brilhantes com poderes mágicos

Dona Fada já preparava o café da manhã para a filha antes que os primeiros raios do Sol atravessassem a janela do quarto. Carinhosa, mostrou capricho no modo com que decorou os bolinhos com minúsculos confeitos coloridos e creme de chocolate, e igualmente foi sua dedicação ao picar um punhado de frutas, selecionando-as uma por uma, para fazer a mais colorida das saladas de frutas que já existiu. Fez também uma jarra de vitamina com leite gordo, iogurte, mel, morangos e cereais, cortou fatias de pão salgado que havia passado boa parte da noite preparando e as recheou com queijo cremoso feito em casa. Fez tudo sem pressa. Uma maravilha!

Amava muito Aninha, uma fadinha simpática, feliz e não menos graciosa. Depois de arrumar o café da manhã na mesa, Dona Fada foi até o quarto da filha e a acordou com um beijo no rosto.

-Bom dia, minha querida. - disse, perguntando. - Está com fome?

Aninha deu um longo bocejo e balançou a cabeça para cima e para baixo, respondendo que sim.

-Ótimo, porque eu também estou com fome.

Dona Fada, percebendo o sono, não hesitou em ajudá-la a despertar de uma vez. Agitando sua varinha mágica no ar, fez com que as cortinas se abrissem e a luz do Sol inundasse o quarto. A claridade é um ótimo despertador natural, além de ser muito usada pelas fadas na hora de acordarem suas filhinhas.

Aninha se levantou da cama em seguida e foi direto para o banheiro, onde lavou o rosto e escovou os dentes, para, então, ir tomar o café. Esse era um ritual que a fadinha cumpria todas as manhãs, logo que acordava. Quando chegou na cozinha, viu o banquete colocado na mesa.

-Obrigado, mamãe. Será que eu vou conseguir comer tudo?

-Tudo? - Dona Fada a encarou, pensativa. - Acho improvável. - respondeu. Enquanto olhava para a mesa e em tom de brincadeira, concluiu. - Como eu já disse, estou com muita fome. Eu te ajudo a comer tudinho. Não vai sobrar nada.

Aninha abriu um largo sorriso, achando graça na descontração da mãe.

-Tudinho mesmo? - perguntou.

-Tudinho. Sou capaz de comer até a mesa.

-Comer a mesa? - Aninha arregalou os olhos. - E as cadeiras, também? - perguntou.

-Tudinho, tudinho, tudinho. - a fada materna insistiu na brincadeira.

Satisfazia-se enormemente e sempre que via um sorriso se abrir no rosto da amada filha. Assim sendo, certa de que realmente estava com muita fome, muita fome mesmo, Aninha sentou-se na cadeira mais próxima da porta da cozinha e começou a tomar o café. Pediu um dos bolinhos caseiros à sua mãe, que a atendeu prontamente, depois quis uma porção de salada de frutas, duas fatias bem grossas de pão e uma caneca cheia de vitamina.

-Que delícia! - exclamou após tomar um gole da vitamina.

Dona Fada a seguiu na comilança. Sentou-se na cadeira, pegou uma fatia de pão e também encheu a sua caneca com vitamina. Metade de uma hora depois, Aninha terminou de tomar o seu café e esteve bem alimentada. Dona Fada, entretanto, havia preparado mais uma surpresa.

Disse, ela:

-Eu tenho um presentinho para você, minha querida.

-Um presente para mim?

-Isso mesmo, ele está no seu quarto.

Definitivamente, aquele estava sendo um dia muito especial para Aninha, muito mesmo. Num súbito contentamento que só se fazia crescer, ela exclamou:

-Eu imaginava que a gente só ganhava presente quando fazia aniversário!

A atenciosa fada fingiu surpresa com o comentário da filha.

-É mesmo? - a fada materna perguntou inocentemente.

-Aham. - a pequena fadinha acenou que sim

Aninha era uma criaturinha que só gerava amor em sua volta. Antes de correr para o quarto para pegar seu presente, ela se levantou da cadeira e beijou Dona Fada no rosto.

-Obrigado, mamãe. - agradeceu novamente. - Eu te amo muito.

-De nada, minha querida, também te amo. - Dona Fada a abraçou. - Te amo muitíssimo mesmo! Você é uma filha carinhosa, obediente e gentil. Merece ganhar um presentinho de vez em quando.


* * * * *

Sem fazer qualquer esforço para minimizar seu entusiasmo e sua curiosidade, Aninha não ficou mais nenhum segundo longe do presente: foi correndo para o seu quarto e viu um par de sapatinhos cor-de-rosa brilharem como pouquíssimas coisas no mundo seriam possíveis de brilhar. Estavam ajeitados caprichosamente, um do ladinho do outro, na beirada da cama.

-Gostou do presente? - perguntou, Dona Fada, ao ver o contentamento estampado no rosto da filha.

-Aham, muito. - respondeu, a menina fadinha, balançando a cabeça afirmativamente. Ao tocar nos sapatinhos, ela perguntou. - Como sabe que a minha cor preferida é rosa?

Meu Deus, como as fadinhas podem ser tão puras! Quem olhasse para o quarto imediatamente veria que a pergunta tinha uma resposta mais do que óbvia. Tudo, exceto as cortinas que eram azuis, tinha os tons da sua cor preferida. Aninha era apaixonada por tudo que lembrava rosas.

Dona Fada se abaixou na altura da filha e, olhando-a com descontração, respondeu:

-Um passarinho fofoqueiro me contou.

-Um passarinho? - Aninha a encarou, surpresa. - De que cor era esse passarinho?

-Um passarinho que também era cor-de-rosa. - afirmou então, Dona Fada, ludicamente.

Assim que ouviu a resposta, Aninha imaginou um passarinho cor-de-rosa fofoqueiro piar no ouvido de sua mãe e achou a cena muito engraçada. Aliás, poucas meninas fadinhas no mundo não veriam graça nisso.

Em seguida, calçou os sapatinhos de brilhantes que couberam perfeitamente nos seus pés.

-Eles são confortáveis? - perguntou, Dona Fada.

Aninha balançou a cabeça, respondendo que sim:

-Aham, eles são.

De fato eram extremamente confortáveis. Aqueles sapatinhos, além de macios, se encaixaram tão perfeitamente nos pés de Aninha que pareciam terem se ajustado magicamente.

Enquanto Dona Fada observava a filha próxima da porta do quarto e presenciava seu entusiasmo com os presentes, a fadinha deu alguns passos para o lado e percebeu que, durante a curta caminhada, eles brilharam com mais intensidade.

-Olha, mamãe, os sapatinhos estão brilhando com mais força! - Aninha exclamou ao olhar para baixo e mexer os pés.

-Sim, querida. - assentiu, Dona Fada, que ainda revelou um detalhe especial do presente que havia dado. - Os sapatinhos são mágicos, por isso é que eles brilham quando você anda.

-Mágicos? Que eles fazem?

-Realizam desejos.

-Que tipo de desejo?

-Qualquer desejo. - Dona Fada respondeu e explicou brevemente. - Com os sapatinhos calçados, você fecha os olhos, faz um pedido do fundo do coração e chacoalha os pés.

Assim sendo, sem perda de tempo, Aninha fechou os olhos e pôs-se a pensar o que pedir.


* * * * *

Foi assim que Aninha realizou seu primeiro desejo: chacoalhou os pés de olhos fechados e seus sapatinhos brilharam segundos antes de um enorme coelho cor-de-rosa, com orelhas gigantes, surgir no quarto.

-Puxa vida, minha querida, você pediu um coelho e tanto! - exclamou, Dona Fada, surpresa e quase caindo para trás. - Ele é muito mais grande do que qualquer outro no mundo e também é cor-de-rosa! - emendou ao mesmo tempo em que se mostrou espantada com o desejo da filha e era observada com ternura pelo animal.

-Ele não é fofinho? - perguntou, Aninha, emanando alegria.

-Aham, muito. - respondeu, Dona Fada. - Ele é bem fofinho, o problema é que é grande demais. Não podia ter pedido um coelho um pouquinho menor, querida?

A menina fadinha pouco pensou para responder que não.

-Eu sempre quis ter um coelho gigante. - disse. - Prometo que vou cuidar dele.

-Promete mesmo?

-Prometo. - assegurou, Aninha, logo perguntando. - Posso ficar com ele?

-Está bem. - aceitou, Dona Fada. Carinhosa, a fada materna olhou para o coelho e atestou à filha. - Você tem razão, minha querida. Ele até que é bem fofinho, apesar do tamanho.

Neste meio tempo, ora confuso, ora assustado, o coelho apenas arrebitou suas enormes orelhas e recebeu vários abraços amorosos de Aninha. Era como se ele se mostrasse muito mais surpreso por ter aparecido naquele quarto do que a própria Dona Fada havia se mostrado ao vê-lo.


* * * * *

Tão logo teve o primeiro desejo atendido pelos sapatinhos de brilhantes, Aninha fez a seguinte pergunta:

-Posso fazer um outro, mamãe?

-Sim, minha querida. - respondeu uma Dona Fada que era observada de perto pelo coelho cor-de-rosa.

-Oba!

Antes de fazerem brilhar os sapatinhos, Aninha voltou a fechar os olhos e colocou-se a imaginar o que poderia ser seu segundo desejo.

-Que eu vou pedir? - em voz baixa, a menina fadinha se perguntava. E pensou. - Eu tenho tudo: tenho uma mãe que me ama, tenho um quarto, tenho brinquedos e tenho até muitas amigas para brincar. Que será que eu quero agora?

Não demorou muito para que Aninha encontrasse a resposta. Mentalizou fortemente outro coelho cor-de-rosa, chacoalhou os pés, fazendo com que seus sapatinhos novamente brilhassem, e viu seu primeiro pedido se multiplicar por dois.

-Minha nossa, outro coelho! - exclamou, Dona Fada, surpreendida com o segundo desejo da filha.

Com um olhar de espanto e como que respondendo a surpresa de Dona Fada, o segundo coelho também externou assombro por sua aparição no quarto, ao mesmo tempo que Aninha agora mostrava uma alegria duplicada em ver que tinha dois coelhos gigantes para brincar.

-Ele não é fofinho? - perguntou.

Dona Fada, sem saber muito o que responder, acenou que sim com a cabeça.

-Aham, minha querida. - disse. - Ele é muito fofinho.


* * * * *

Os dois coelhos se ajuntaram num canto do quarto e não fizeram cerimônia ou rejeição à presença de um ao outro. De imediato, ficaram amigos. Mesmo assim, Dona Fada não conseguia deixar de observá-los com certo ar de preocupação. Não tinha medo deles pois, apesar de serem bem mais grandes do que o normal, eram mansos, carinhosos e dóceis. Sua preocupação se limitava ao pouco espaço que tinha dentro de casa para abrigá-los com conforto.

-Onde eles vão ficar, minha querida? - perguntou à filha, referindo-se aos coelhos.

A resposta pareceu ser bastante óbvia para a menina fadinha.

-No meu quarto. - respondeu. Ingenuamente, concluiu. - Eles vão dormir junto comigo, na minha cama. São meus filhinhos.

Dona Fada sorriu com a resposta.

-Na sua cama?

-Isso mesmo. - assegurou, Aninha, que, com uma alegria que só se fazia crescer, exclamou ainda para Dona Fada. - A gente vai dormir bem juntinho, vai ser muito legal!

Na cama mal cabiam um dos coelhos, quiçá os dois coelhos juntos. Cada um deles tinha mais do que o triplo do tamanho da menina fadinha. Dona Fada, assim sendo, sem insistir com a preocupação, limitou-se a sorrir prazerosamente enquanto presenciava a alegria da filha, que, por sua vez, ansiosa em ver seus sapatinhos brilharem novamente, tornou a perguntar:

-Eu posso fazer outro desejo?

-Outro desejo? - apreensiva, Dona Fada parou de sorrir no mesmo instante. - Que você vai pedir? - perguntou já desconfiando qual seria a resposta.

-Eu quero outro coelho cor-de-rosa. - Aninha respondeu.

-Outro coelho cor-de-rosa! - Dona Fada quase se derramou para trás. - Tem certeza, minha querida? - questionou-a, trêmula e com os olhos bem arregalados.

Aninha só pode ter brincado com a mãe ao responder que queria outro coelho cor-de-rosa; já tinha dois! Mas não brincou.

-Aham. - respondeu que sim. - Você sabe que eu sou apaixonada por coelho e que também amo muito cor-de-rosa, não sabe? - destemida, sonhadora e determinada, Aninha era pura felicidade.

-Sim, minha queria. - Dona Fada autorizou que a filha fizesse o terceiro pedido então. - Que mau há em ter mais um coelhinho gigante, não é mesmo? – fez a pergunta a si própria.

A pequena fadinha chacoalhou os pés alegremente e fez com que seus sapatinhos mágicos voltassem a brilhar, enquanto que os dois coelhos gigantes levantaram as orelhas, encolheram os focinhos e correram, assustados, para cima da cama, que se partiu ao meio com o peso dos dois. Pareceram adivinhar o exato instante que o terceiro coelho cor-de-rosa apareceu no quarto.

FIM

27 de novembro de 2016

Manifestos da Infância: Magricela, Revanche e os Meninos da Rua.

História infantil em que uma cadelinha de rua morre atropelada por uma bicicleta

Dava dó ver o modo como a coitadinha era tratada quando eles se ajuntavam. Uns verdadeiros malvados: é isso sim! Mas, antes que tenham pena de Magricela, é bom que se ressalte que não eram propriamente cruéis, pelo contrário, tinham bondade no coração e não a machucavam. Tratavam-na somente como distração, um passatempo.

A coisa toda começava assim que Magricela via os meninos brincando na rua de paralelepípedos. A vira-lata não perdia tempo e corria para junto deles. Latindo e abanando um fiapo de rabo pendurado no traseirinho ossuda, ela invadia a roda e corria atrás da bola de futebol que os meninos chutavam de um lado para o outro, achando graça na situação. A bola, além de gasta, estava sempre suja de terra.

-Pega a bola, Magricela! - exclamou, um deles, prometendo logo em seguida. - Se você pegar, eu te dou um naco de carne.

Lógico que de tão fraquinha a pobre cadelinha nunca conseguia alcançar a bola. Mesmo se esforçando até faltar o ar, Magricela, se já não bastasse o fracasso de sempre perder para os meninos, continuava com fome. Parece que se contentava apenas em participar das brincadeiras, o que não era verdade. Estimava também a companhia dos meninos e queria ficar o maior tempo possível junto deles.

-Está com fome, Magricela? - outro menino perguntou certa vez que a viu correr atrás da bola.
O sujeitinho desacorçoado fez essa pergunta já sabendo a resposta.

Depois de muito fazerem a pobrezinha de boba, os meninos enfim lhe davam, como recompensa, um pedacinho de carne congelada que mal enchia uma pata. Uma miséria! Magricela mordia o pedacinho com sua boquinha minúscula, levando-o para o meio do mato, e ainda tinha que esperar, paciente, a carne descongelar para comer.

Meu Deus, como ela sofria!

Magricela penava muito!


* * * * *

Certo dia os meninos tiveram uma lição. Ao ver Magricela correndo atrás da bola feito doida, uma gata persa branca, que não era de brincadeira, invadiu a roda e pôs fim na zoação.

-Isso não tem graça nenhuma. - miou para os meninos.

A gata se chamava Revanche. Revanche era uma gata valente. Junto com a coitadinha da Magricela, não saiu do meio da roda.

-Dá o fora daqui, sua abobada! - reclamou, um dos meninos, irritado com a ousadia da gata. - Você está atrapalhando a brincadeira! - exclamou.

Em voz alta, um segundo menino emendou:

-O que será que ela quer?

Os meninos da rua não compreenderam porquê Revanche estava agindo daquela maneira. Nunca havia feito isso antes. Ficaram encarando, sem qualquer reação, a gata branca que não se mexia do lugar.

Magricela, ainda mais surpresa, ora olhava para Revanche como quem tentava entender os motivos para ela interromper a brincadeira, ora para os meninos que a essa altura do impasse já haviam esquecido completamente a roda e a bola.

-Não vai sair? - um terceiro menino perguntou.

Revanche, em resposta, miou baixinho:

-Não... não vou.

Diante da teimosice, os meninos começavam a perder a paciência.

-Vamos chutar a bola nela. - sugeriu, um deles, que completou. - Assim ela deixa de ser intrometida e vai embora.

Os outros concordaram, porém a ameaça não produziu resultado. Revanche permaneceu parada no meio da roda. Foi então que o menino apanhou a bola e recuou uma certa distância para chutá-la.

-Vou contar até três para você deixar a gente em paz. - avisou-a, em tom de ameaça. - Se não sair da roda, vai tomar um bolaço.

-Não tenho medo. - Revanche miou, destemidamente. - Ninguém me arranca daqui.

A valente gata persa continuou onde estava e o menino, assim sendo, não perdeu tempo. Contou até três, porém, antes mesmo que pusesse o pé na bola, Revanche mostrou ser muito mais rápida, saltando encima dele.

-Sai de cima de mim! - gritou, pulando que nem maluco para se livrar da gata.

O menino chutou a bola para cima e rodopiou várias vezes antes de finalmente conseguir se livrar da gata, que saltou no chão e saiu correndo para perto de Magricela. Os outros meninos dispararam no encalço do amigo; não olharam para trás; só exclamaram:

-Essa gata deve estar com o capeta no couro!

Em seguida, sozinha com Magricela, Revanche encarou a pobrezinha com enorme incredulidade.

-Você não pode deixar aqueles meninos bobocas te tratarem assim. - miou, a gata, em tom penoso e de crítica. - Onde está seu orgulho? - perguntou.

Magricela, envergonhada, nada respondeu. Não tinha o que responder. Sentindo-se triste, qualquer coisa que dissesse só aumentaria sua tristeza. Ela abaixou a cabeça, deu-lhe as costas e foi embora.

Era fácil para uma gata criada bem, de boa família, falar em orgulho. Revanche tinha ração fresca, banho morno toda a semana e uma casa quentinha para se proteger do frio. Não conhecia a dureza de viver nas ruas.


* * * * *

Os meninos voltaram a se reunir, mas jogar bola definitivamente parecia que não tinha a mesma graça. A rua andava bastante chata sem Magricela. Mal puseram a bola no chão para o começo da brincadeira e um dos meninos reclamou sua falta, perguntando aos amigos:

-Onde será que ela está?

Os meninos se entreolharam, deixando claro não entenderem sobre quem ele se referia.

Um deles perguntou:

-Quem?

-A Magricela. - o menino respondeu. - Até agora ela não apareceu para brincar com a gente; justo ela que sempre aparece e que vive atrás da gente.

-É verdade. - outro menino concordou. - Faz tempo que eu não a vejo. - afirmou. Depois reiterou a pergunta. - Onde será que ela está?

Convencidos de que Magricela não podia ficar fora da brincadeira os meninos então resolveram procurá-la. Havia um terreno abandonado no fim da rua. Foram direto para lá.

-A gente quer brincar com você! - gritou, um deles, assim que atravessou a cerca e entrou no terreno. - Magricela, aparece logo! - emendou.

-A gente te dá um pedaço bem grande de carne! - outro menino prometeu.

Olharam atentamente ao redor, porém nada encontraram naquele lugar, senão mato e umas árvores secas castigadas por uma cerca de arame farpado. A pobre Magricela sempre aparecia para jogar bola com eles que não entendiam porquê, naquele momento, estava sendo diferente.

-Será que ela está chateada com a gente? - perguntou, um menino que segurava a bola.

Ficou sem resposta.

Ansiosos por encontrá-la, continuaram a procura. Foram para o quarteirão do lado, onde havia um pequeno restaurante. Magricela muitas vezes, quando não brincava com os meninos, ficava deitada próximo da porta de entrada, esperando que os clientes lhe atirassem comida. Novamente não encontraram ao menos um sinal da presença dela.

Foi somente quando os meninos retornaram para a rua de paralelepípedos, cansados de tanta procura, é que avistaram a gata Revanche com um olhar triste, a cabeça abaixada e praticamente inerte na calçada.


* * * * *

Assim que se aproximaram da gata persa, um dos meninos perguntou:

-Por que você está triste?

Em resposta, Revanche miou baixinho, um miado incrivelmente triste que em nada lembrou a valentia de antes.

Lamentando-se, disse:

-É tudo minha culpa. Eu não deveria ter falado daquele jeito com ela. Não deveria tê-la tratado mal.

Com crescente estranheza e apreensão, os meninos prontamente a questionaram:

-Do que você está falando?

-O que foi que houve?

-Aconteceu alguma coisa?

-Fala logo o que você sabe!

Revanche levantou a cabeça, sem mostrar qualquer incômodo com o interrogatório, e olhou para os meninos.

-Não aconteceu nada comigo, eu estou bem. - tranquilizou-os. Tomando coragem, revelou. - Estou triste porquê ela foi atropelada.

Ao ouvir a revelação, um dos meninos imediatamente se apressou em perguntar:
-Quem é que foi atropelada?

-A pobre Magricela! - berrou, a gata, que, após um miado de agonia, explicou. - Eu mesma vi quando, ao atravessar a rua, uma bicicleta desalmada acertou a coitadinha em cheio.

A explicação fez-se tão enormemente sem sentido que os meninos da rua perguntaram quase ao mesmo tempo:

-A nossa Magricela foi atropelada?

-Sim, por uma bicicleta. - miou, Revanche, que voltou a lamentar. - Pobrezinha da Magricela, pobrezinha!

Para os meninos, ser atropelado por uma bicicleta não parecia ser algo tão grave assim. O acidente no máximo resultaria em alguns arranhões e esfoladuras, nada que não pudesse ser remediado. Não conseguiam ver sentido para a desmedida tristeza que a gata expressava.

-Onde ela está agora? - um deles perguntou.

Subitamente emudecida, Revanche os encarou com profunda consternação e logo em seguida voltou a abaixar a cabeça. Com isso, eles perceberam a gravidade do acidente e que Magricela havia ido para nunca mais voltar.

Um menino perguntou:

-Tem certeza que ela morreu?

Revanche limitou-se a acenar afirmativamente com a cabeça.

Os meninos da rua, que só viam graça em jogar bola na companhia da pobrezinha, abaixaram também a cabeça. Magricela era a única e melhor amiga que tinham. Com quem mais eles jogariam bola na rua?

-Ela era tão legal com a gente. - afirmou, um deles, aos amigos que no mesmo instante concordaram.


* * * * *

Mesmo entristecidos, a vontade de jogar bola foi tamanha que não demorou um dia sequer e os meninos já estavam reunidos na rua de novo. Ainda sentiam saudades de Magricela, mas também adoravam brincar de jogar bola.

Fizeram a roda que sempre faziam e começaram a chutá-la de um lado para o outro. Chutaram uma vez, duas vezes, três vezes. No quarto chute tiveram uma agradável surpresa: uma cadelinha cor de chocolate, tão magra e frágil quanto foi Magricela, parada num canto da rua, hesitava se aproximar. Um dos meninos, assim que a avistou, chamou a atenção dos amigos, apontando na direção da cadelinha.

-Como a gente vai chamá-la? - perguntou.

-Angélica. - respondeu, o amigo.

-Não. - antes que chutasse a bola, um menino rapidamente discordou. E sugeriu. - O nome dela pode ser Belinha.

-Não vai ser Angélica, nem Belinha. - divergiu, outro menino. - Que tal Magricela? - propôs.

Os amigos o encararam com certo estranhamento. Haviam perdido a amiga Magricela no acidente com a bicicleta. Imaginaram que só podia ter ficado louco em sugerir o nome da finada cadelinha.

Na dúvida, um deles perguntou de volta, só para confirmar se ouvira corretamente:

-Você disse Magricela?

-Sim. - ele confirmou. Sem compreender o porquê do estranhamento com o nome sugerido, justificou-se. - Ela se parece com a outra Magricela e pode ser a nossa nova amiga tranquilamente. O nome é uma homenagem.

Os meninos da rua se entreolharam, pensativos, mas não demoraram em aprovar a ideia de homenagear a amiga atropelada e não mais se ouviu qualquer objeção ao nome.

-Eu concordo. - disse, um deles.

-Eu também. - emendou, o outro.

-Também concordo. - um terceiro complementou. E concluiu. - Magricela certamente é um bom nome.

De fato, ambas as cadelinhas guardavam curiosas semelhanças. Tinham a mesma magreza, embora a magreza da primeira Magricela fosse um pouco mais ossuda, e tinham até a mesma cor, embora a original fosse um pouco mais escurinha. Eram incrivelmente semelhantes no olhar abandonado e no jeito perdido com que caminhavam.

Imediatamente após a escolha do nome, os meninos da rua voltaram a brincar. Já não mais pareciam ser tão malvados na zoação. Eles chamaram Magricela que, jubilosa, entrou no meio da roda e começou a correr atrás da bola.

-Pega a bola, Magricela! - incentivavam, os meninos.

A rua de paralelepípedos foi se enchendo de alegria ao tempo em que as duas, bola e Magricela, corriam de um lado para o outro, e corriam sem descanso.

FIM