Dona Fada já preparava
o café da manhã para a filha antes que os primeiros raios do Sol
atravessassem a janela do quarto. Carinhosa, mostrou capricho no modo
com que decorou os bolinhos com minúsculos confeitos coloridos e
creme de chocolate, e igualmente foi sua dedicação ao picar um
punhado de frutas, selecionando-as uma por uma, para fazer a mais
colorida das saladas de frutas que já existiu. Fez também uma jarra
de vitamina com leite gordo, iogurte, mel, morangos e cereais, cortou
fatias de pão salgado que havia passado boa parte da noite
preparando e as recheou com queijo cremoso feito em casa. Fez tudo
sem pressa. Uma maravilha!
Amava muito Aninha, uma
fadinha simpática, feliz e não menos graciosa. Depois de arrumar o
café da manhã na mesa, Dona Fada foi até o quarto da filha e a
acordou com um beijo no rosto.
-Bom dia, minha
querida. - disse, perguntando. - Está com fome?
Aninha deu um longo
bocejo e balançou a cabeça para cima e para baixo, respondendo que
sim.
-Ótimo, porque eu
também estou com fome.
Dona Fada, percebendo o
sono, não hesitou em ajudá-la a despertar de uma vez. Agitando sua
varinha mágica no ar, fez com que as cortinas se abrissem e a luz do
Sol inundasse o quarto. A claridade é um ótimo despertador natural,
além de ser muito usada pelas fadas na hora de acordarem suas
filhinhas.
Aninha se levantou da
cama em seguida e foi direto para o banheiro, onde lavou o rosto e
escovou os dentes, para, então, ir tomar o café. Esse era um ritual
que a fadinha cumpria todas as manhãs, logo que acordava. Quando
chegou na cozinha, viu o banquete colocado na mesa.
-Obrigado, mamãe. Será
que eu vou conseguir comer tudo?
-Tudo? - Dona Fada a
encarou, pensativa. - Acho improvável. - respondeu. Enquanto olhava
para a mesa e em tom de brincadeira, concluiu. - Como eu já disse,
estou com muita fome. Eu te ajudo a comer tudinho. Não vai sobrar
nada.
Aninha abriu um largo
sorriso, achando graça na descontração da mãe.
-Tudinho mesmo? -
perguntou.
-Tudinho. Sou capaz de
comer até a mesa.
-Tudinho, tudinho,
tudinho. - a fada materna insistiu na brincadeira.
Satisfazia-se
enormemente e sempre que via um sorriso se abrir no rosto da amada
filha. Assim sendo, certa de que realmente estava com muita fome,
muita fome mesmo, Aninha sentou-se na cadeira mais próxima da porta
da cozinha e começou a tomar o café. Pediu um dos bolinhos caseiros
à sua mãe, que a atendeu prontamente, depois quis uma porção de
salada de frutas, duas fatias bem grossas de pão e uma caneca cheia
de vitamina.
-Que delícia! -
exclamou após tomar um gole da vitamina.
Dona Fada a seguiu na
comilança. Sentou-se na cadeira, pegou uma fatia de pão e também
encheu a sua caneca com vitamina. Metade de uma hora depois, Aninha
terminou de tomar o seu café e esteve bem alimentada. Dona Fada,
entretanto, havia preparado mais uma surpresa.
Disse, ela:
-Eu tenho um
presentinho para você, minha querida.
-Um presente para mim?
-Isso mesmo, ele está
no seu quarto.
Definitivamente, aquele
estava sendo um dia muito especial para Aninha, muito mesmo. Num
súbito contentamento que só se fazia crescer, ela exclamou:
-Eu imaginava que a
gente só ganhava presente quando fazia aniversário!
A atenciosa fada fingiu
surpresa com o comentário da filha.
-É mesmo? - a fada
materna perguntou inocentemente.
-Aham. - a pequena
fadinha acenou que sim
Aninha era uma
criaturinha que só gerava amor em sua volta. Antes de correr para o
quarto para pegar seu presente, ela se levantou da cadeira e beijou
Dona Fada no rosto.
-Obrigado, mamãe. -
agradeceu novamente. - Eu te amo muito.
-De nada, minha
querida, também te amo. - Dona Fada a abraçou. - Te amo muitíssimo
mesmo! Você é uma filha carinhosa, obediente e gentil. Merece
ganhar um presentinho de vez em quando.
* * * * *
Sem fazer qualquer
esforço para minimizar seu entusiasmo e sua curiosidade, Aninha não
ficou mais nenhum segundo longe do presente: foi correndo para o seu
quarto e viu um par de sapatinhos cor-de-rosa brilharem como
pouquíssimas coisas no mundo seriam possíveis de brilhar. Estavam
ajeitados caprichosamente, um do ladinho do outro, na beirada da cama.
-Gostou do presente? -
perguntou, Dona Fada, ao ver o contentamento estampado no rosto da
filha.
-Aham, muito. -
respondeu, a menina fadinha, balançando a cabeça afirmativamente.
Ao tocar nos sapatinhos, ela perguntou. - Como sabe que a minha cor
preferida é rosa?
Meu Deus, como as fadinhas podem ser tão puras! Quem olhasse para o quarto imediatamente
veria que a pergunta tinha uma resposta mais do que óbvia. Tudo,
exceto as cortinas que eram azuis, tinha os tons da sua cor
preferida. Aninha era apaixonada por tudo que lembrava rosas.
Dona Fada se abaixou na
altura da filha e, olhando-a com descontração, respondeu:
-Um passarinho
fofoqueiro me contou.
-Um passarinho? -
Aninha a encarou, surpresa. - De que cor era esse passarinho?
-Um passarinho que
também era cor-de-rosa. - afirmou então, Dona Fada, ludicamente.
Assim que ouviu a
resposta, Aninha imaginou um passarinho cor-de-rosa fofoqueiro piar
no ouvido de sua mãe e achou a cena muito engraçada. Aliás, poucas
meninas fadinhas no mundo não veriam graça nisso.
Em seguida, calçou os
sapatinhos de brilhantes que couberam perfeitamente nos seus pés.
-Eles são
confortáveis? - perguntou, Dona Fada.
Aninha balançou a
cabeça, respondendo que sim:
-Aham, eles são.
De fato eram
extremamente confortáveis. Aqueles sapatinhos, além de macios, se
encaixaram tão perfeitamente nos pés de Aninha que pareciam terem
se ajustado magicamente.
Enquanto Dona Fada
observava a filha próxima da porta do quarto e presenciava seu
entusiasmo com os presentes, a fadinha deu alguns passos para o lado
e percebeu que, durante a curta caminhada, eles brilharam com mais
intensidade.
-Olha, mamãe, os
sapatinhos estão brilhando com mais força! - Aninha exclamou ao
olhar para baixo e mexer os pés.
-Sim, querida. -
assentiu, Dona Fada, que ainda revelou um detalhe especial do
presente que havia dado. - Os sapatinhos são mágicos, por isso é
que eles brilham quando você anda.
-Mágicos? Que eles
fazem?
-Realizam desejos.
-Que tipo de desejo?
-Qualquer desejo. -
Dona Fada respondeu e explicou brevemente. - Com os sapatinhos
calçados, você fecha os olhos, faz um pedido do fundo do coração
e chacoalha os pés.
Assim sendo, sem perda
de tempo, Aninha fechou os olhos e pôs-se a pensar o que pedir.
* * * * *
Foi assim que Aninha
realizou seu primeiro desejo: chacoalhou os pés de olhos fechados e
seus sapatinhos brilharam segundos antes de um enorme coelho
cor-de-rosa, com orelhas gigantes, surgir no quarto.
-Puxa vida, minha
querida, você pediu um coelho e tanto! - exclamou, Dona Fada,
surpresa e quase caindo para trás. - Ele é muito mais grande do que
qualquer outro no mundo e também é cor-de-rosa! - emendou ao mesmo
tempo em que se mostrou espantada com o desejo da filha e era
observada com ternura pelo animal.
-Ele não é fofinho? -
perguntou, Aninha, emanando alegria.
-Aham, muito. -
respondeu, Dona Fada. - Ele é bem fofinho, o problema é que é
grande demais. Não podia ter pedido um coelho um pouquinho menor,
querida?
A menina fadinha pouco
pensou para responder que não.
-Eu sempre quis ter um
coelho gigante. - disse. - Prometo que vou cuidar dele.
-Promete mesmo?
-Prometo. - assegurou,
Aninha, logo perguntando. - Posso ficar com ele?
-Está bem. - aceitou,
Dona Fada. Carinhosa, a fada materna olhou para o coelho e atestou à
filha. - Você tem razão, minha querida. Ele até que é bem
fofinho, apesar do tamanho.
Neste meio tempo, ora
confuso, ora assustado, o coelho apenas arrebitou suas enormes
orelhas e recebeu vários abraços amorosos de Aninha. Era como se
ele se mostrasse muito mais surpreso por ter aparecido naquele quarto
do que a própria Dona Fada havia se mostrado ao vê-lo.
* * * * *
Tão logo teve o
primeiro desejo atendido pelos sapatinhos de brilhantes, Aninha fez a
seguinte pergunta:
-Posso fazer um outro,
mamãe?
-Sim, minha querida. -
respondeu uma Dona Fada que era observada de perto pelo coelho
cor-de-rosa.
-Oba!
Antes de fazerem
brilhar os sapatinhos, Aninha voltou a fechar os olhos e colocou-se a
imaginar o que poderia ser seu segundo desejo.
-Que eu vou pedir? - em
voz baixa, a menina fadinha se perguntava. E pensou. - Eu tenho tudo:
tenho uma mãe que me ama, tenho um quarto, tenho brinquedos e tenho
até muitas amigas para brincar. Que será que eu quero agora?
Não demorou muito para
que Aninha encontrasse a resposta. Mentalizou fortemente outro coelho
cor-de-rosa, chacoalhou os pés, fazendo com que seus sapatinhos
novamente brilhassem, e viu seu primeiro pedido se multiplicar por
dois.
-Minha nossa, outro
coelho! - exclamou, Dona Fada, surpreendida com o segundo desejo da
filha.
Com um olhar de espanto
e como que respondendo a surpresa de Dona Fada, o segundo coelho
também externou assombro por sua aparição no quarto, ao mesmo
tempo que Aninha agora mostrava uma alegria duplicada em ver que
tinha dois coelhos gigantes para brincar.
-Ele não é fofinho? -
perguntou.
Dona Fada, sem saber
muito o que responder, acenou que sim com a cabeça.
-Aham, minha querida. -
disse. - Ele é muito fofinho.
* * * * *
Os dois coelhos se
ajuntaram num canto do quarto e não fizeram cerimônia ou rejeição
à presença de um ao outro. De imediato, ficaram amigos. Mesmo
assim, Dona Fada não conseguia deixar de observá-los com certo ar
de preocupação. Não tinha medo deles pois, apesar de serem bem
mais grandes do que o normal, eram mansos, carinhosos e dóceis. Sua
preocupação se limitava ao pouco espaço que tinha dentro de casa
para abrigá-los com conforto.
-Onde eles vão ficar,
minha querida? - perguntou à filha, referindo-se aos coelhos.
A resposta pareceu ser
bastante óbvia para a menina fadinha.
-No meu quarto. -
respondeu. Ingenuamente, concluiu. - Eles vão dormir junto comigo,
na minha cama. São meus filhinhos.
Dona Fada sorriu com a
resposta.
-Na sua cama?
-Isso mesmo. -
assegurou, Aninha, que, com uma alegria que só se fazia crescer,
exclamou ainda para Dona Fada. - A gente vai dormir bem juntinho, vai
ser muito legal!
Na cama mal cabiam um
dos coelhos, quiçá os dois coelhos juntos. Cada um deles tinha mais
do que o triplo do tamanho da menina fadinha. Dona Fada, assim sendo,
sem insistir com a preocupação, limitou-se a sorrir prazerosamente
enquanto presenciava a alegria da filha, que, por sua vez, ansiosa em
ver seus sapatinhos brilharem novamente, tornou a perguntar:
-Eu posso fazer outro
desejo?
-Outro desejo? -
apreensiva, Dona Fada parou de sorrir no mesmo instante. - Que você
vai pedir? - perguntou já desconfiando qual seria a resposta.
-Eu quero outro coelho
cor-de-rosa. - Aninha respondeu.
-Outro coelho
cor-de-rosa! - Dona Fada quase se derramou para trás. - Tem certeza,
minha querida? - questionou-a, trêmula e com os olhos bem
arregalados.
Aninha só pode ter
brincado com a mãe ao responder que queria outro coelho cor-de-rosa;
já tinha dois! Mas não brincou.
-Aham. - respondeu que
sim. - Você sabe que eu sou apaixonada por coelho e que também amo
muito cor-de-rosa, não sabe? - destemida, sonhadora e determinada,
Aninha era pura felicidade.
-Sim, minha queria. -
Dona Fada autorizou que a filha fizesse o terceiro pedido então. -
Que mau há em ter mais um coelhinho gigante, não é mesmo? – fez
a pergunta a si própria.
A pequena fadinha
chacoalhou os pés alegremente e fez com que seus sapatinhos mágicos
voltassem a brilhar, enquanto que os dois coelhos gigantes levantaram
as orelhas, encolheram os focinhos e correram, assustados, para cima
da cama, que se partiu ao meio com o peso dos dois. Pareceram adivinhar o
exato instante que o terceiro coelho cor-de-rosa apareceu no
quarto.
FIM
