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7 de novembro de 2016

Conto: O Iluminado às Favas.

Planeta similar a Terra com vida extraterrestre inteligente e desenvolvida

Foi imediatamente após o instante em que o feixe de luz se acendeu, clareando a noite, que Paciência se teletransportou no Cais do Valongo e foi flagrado por Desidério, que havia acabado de se recostar em um muro para dormir ao relento. Paciência, ao tempo em que tinha a fisionomia insuspeita de um homem, era um misterioso refinado viajante estrangeiro, vindo do outro mundo.

Temeroso, Desidério, com o susto, mal acreditou no que viu. Arregalara os olhos com a aparição, mas permaneceu recostado no muro como se nada houvesse acabado de acontecer. Julgou prudente que continuasse assim. Não sabia que o sujeito era de bem, amigável e que, se não tivesse motivos, tampouco também os teria para fazer-lhe mau. Depois que apareceu, Paciência manteve uma postura absolutamente contemplativa em relação a noite. Ao ver a Lua, agigantada, brilhosa em um céu negro salpicado por mínimas estrelas faiscantes e próxima da Terra, diferente dos cinco satélites prateados que orbitavam o seu planeta, ele se emocionou então, derramando uma solene lágrima perolada. Seu mundo e todo o seu reino travavam uma longa e duradoura guerra, que suportava valentemente. Em busca de distração, de tranquilidade, de paz, visitara o cais outras duas vezes, sempre a noite para que ficasse sozinho.

Desidério desconfiou que o homem não quisesse ser flagrado. Se recostou um pouco mais e ficou observando-o apenas com um dos olhos entreaberto, fingindo dormir. Paciência, no entanto, não demorou a perceber que não estava sozinho. Com uma visão super-humana, olhou em volta e viu que ele o observava, oculto no escuro, e percebeu seu medo. Reverenciou-se à Lua em profundo agradecimento por sua cósmica existência, em um até logo, e foi até Desidério, que, por sua vez, sem prever que se aproximasse, se levantou e pôs-se a caminhar para fora do cais.

-Porquê tem medo de mim?

Desidério, porém, continuou caminhando. E apressou os passos.

-Que mau eu lhe fiz com a minha presença?

Ainda assim, apressou os passos.

-Pare!

Desidério não parou.

-Eu mandei você parar!

Continuou caminhando.

-Pare ou eu o faço parar!

No que exclamou, uma explosão silenciosa e luminosa, de repente, se acendeu às costas de Desidério, que, então, apavorado, parou.

-Porquê tem medo de mim?

-Não sei, senhor, você apareceu e eu apenas fiquei com medo. Levantei para ir embora. Não sei o que me deu.

-Pois não precisa ter medo. Não vou lhe fazer mau; teria feito se quisesse no momento em que apareci. Já que me viu, só quero sua companhia.

Desidério concordou em fazer companhia para Paciência. Caminharam de volta para o ponto no cais em que havia se recostado no muro para dormir e, ao sentarem-se no chão de pedra, ficaram infindáveis dois minutos sem que dissessem coisa alguma. Um olhou para o rosto do outro como quem oferecia a oportunidade de começar a falar, e em vão. Foi então que Paciência quebrou o silêncio:

-Deve estar curioso em saber como eu fiz aquilo, adivinhei? Não precisa fingir que não viu como eu cheguei aqui. Sei que é difícil para você acreditar que uma pessoa possa aparecer do nada. Se estivesse em seu lugar, também não acreditaria. - Paciência sorriu com inesperável simpatia para Desidério e, depois, se apresentou. - Venho de uma Terra localizada há trinta galáxias de distância da sua. Sou um ser de paz. Meu nome é Paciência.

Muito mais calmo diante da eloquência e civilidade de Paciência, Desidério foi objetivo em perguntar:

-Mas, exatamente falando, o que é você?

-Desculpe se não fui suficientemente claro em minha apresentação. - disse, Paciência. - Vim de um planeta distante, há duzentos bilhões de anos-luz da sua Terra para ser mais exato, embora não tão longe para mim como pôde perceber. Sou extraterrestre e seu amigo, pois quero que me considere assim. Sou Paciência. E você, quem é?

-Meu nome é Desidério. Vivo nas ruas. Também pode me considerar um amigo.

-Vive nas ruas?

-Correto, pode acreditar que sim. Onde pousou a sua nave que eu não a vejo?

-Nave? Em nenhum lugar. Quando me viu aparecer, viu descer alguma nave do céu?

-Não.

-Pois é, e não a veria porquê não preciso de uma para ir aonde eu quero. É assim que se dá com todos de minha Terra. Nos teletransportamos. A nossa nave é a luz.

Logo em seguida que Paciência explicou, um gato se aproximou e deitou em seu colo. Queria que lhe alisasse os pelos, queria carinho.

-E a luz é segura? - Desidério perguntou.

-Sim, é segura, mas sempre haverá um pouco de dor para tudo que se inventa.

-E de morte, e de sangue também?

-Sim. - Paciência respondeu.

-Temos muito em comum então. Não somos mais tão estrangeiros assim.

No momento em que se seguiu, o gato que havia deitado preguiçosamente no colo de Paciência se levantou e pôs-se a andar como um mimadinho que se cansara de receber carinho, desaparecendo na penumbra do cais.

Conversavam com refinamento e certa coloquialidade. Já não parecia mais que Desidério se encontrava diante de um viajante espacial; dirigia a ele argumentos e considerações semelhantes aos de um amigo de longa data e o contrário foi recíproco nas vezes em que Paciência o aconselhou de forma fraterna e construtiva. Pouco mais de uma hora, intuindo o passado incomum de Desidério, ele o estimulou para que contasse o máximo que lembrava dele.

-Falei de onde vim, mas você ainda não. Precisarei perguntá-lo para saber?

Desidério respondeu então:

-Sou angolano, de uma aldeia do norte de Angola. Mal virei homem, reuni toda a coragem com algumas poucas peças de roupas sujas dentro de uma mala e vim para o Rio de Janeiro em busca de emprego, de uma vida melhor para mim e para meus pais. Isso, há mais de trinta anos, muito tempo realmente! Vim fugindo da miséria, que, como você pode imaginar pela minha autal situação, nunca aconteceu. Frustrado, há mais de trinta anos que troquei a aldeia pela rua. Que eu podia esperar, não é mesmo? Não tive estudo decente e o único emprego que arrumei não vingou. Passei a maior parte do tempo vivido no Rio, desempregado, de cais em cais. Também não pense que tenho orgulho de ser mendigo e de depender da caridade de estranhos, é que me conformei com a realidade. Nasci para morrer pobre.

-Acha mesmo isso? Acredita que nasceu destinado ao pior?

-Sim, é o que acredito, ou é o que me conforta acreditar pelo menos.

-Às vezes, a gente se perde para se encontrar.

-Tem razão talvez, mas alguns nunca se encontram mesmo eternamente perdido.

Quando jovem, Desidério tinha um hábito que o fazia ser bastante impopular na aldeia. Descontraído, soltou uma sonora gargalhada ao exclamar:

-Até que fui feliz em Angola; sequer a tarde caía, matava aula do colégio e ia direto para o quintal da vizinha para gozar. Bons tempos, aqueles!

Paciência, compreensivo, também gargalhou.

-Sente saudade do quintal da vizinha? - perguntou.

-Não, sinto saudade de toda a Angola. Me agrada os bons momentos escondidinhos nas lembranças.

-Protegidos.

-A salvo. Mas não gozava em qualquer canto, gozava em um jardinzinho improvisado, em uma plantação de rosas próxima de uma cerca, e, por mais que me apressasse e tentasse ser discreto, às vezes, era flagrado em gritos raivosos e de protesto pela vizinha, que ia correndo contar a safadeza aos meus pais. Como desculpa, dizia-lhes que não tinha culpa que o perfume das rosas me excitava.

-Ainda excita?

-As rosas do Brasil?

-Sim.

-Não, só as de Angola, as da vizinha.

-Senta saudade de seus pais?

-Não, não sinto mais. Me conformei com a falta deles também. Papai e mamãe morreram pouco depois que parti para o Brasil.

No que Desidério terminou de responder, o gato que havia se deitado no colo de Paciência reapareceu da noite em que se ocultara, voltando a se deitar preguiçosamente no colo de Paciência, que, por sua vez, tornou a responder à preguiça sendo demoradamente carinhoso com ele. Com suas mãos alongadas e albinas, Paciência alisava-lhes os pelos do corpo ao ponto de que o gato, como que amolecido de conforto, dormia em seu colo e despertava com um miado fino; ambos imersos em ternura. Desidério até que tentava ignorar a presença do gato e concentrar-se exclusivamente na figura daquele viajante, mas o gato, vez ou outra, se levantava do colo de Paciência e se esfregava contra as suas pernas, igualmente terno e preguiçoso. Desidério, para não se passar por insensível, ofereceu uma ou duas alisadas de mão ao gato.

Paciência perguntou para Desidério:

-O gato é seu?

-Meu? Não. Pelo que vejo, é nosso, é de todos. - respondeu com descontração.

 -Nosso, de todos e dos primeiros. - Paciência concordou.

Os dois permaneceram no cais por mais algum tempo, conversando sentados no chão de pedra e recostados no muro, até que Paciência se levantou e despediu-se de Desidério.

-Está na hora de eu retornar para a minha Terra, na qual ainda tenho uma guerra para combater. - disse.

-E porquê não trabalha pela paz?

-Porquê nem sempre a paz é o melhor, o mais sábio a se fazer, o caminho que leva a tempos mais frutíferos. Às vezes, são somente a dor e o sofrimento que fortificam reinos, engrandecem convicções e fundamentam os mais valorosos valores.

-A paz inclusive?

-A paz inclusive.

-Mas tenta!

-E acha que já não tentei? Preciso mesmo ir. Se eu não for, vão sentir a minha demora e virão me buscar em sua Terra; e não vai querer que eles venham me buscar em sua Terra, eu lhe asseguro. Adeus, Desidério.

-Paciência!

-Sim?

-E Deus?

-Deus?

-Deus existe?

Sem que o respondesse, Paciência o encarou com profunda compaixão, sorriu-lhe de modo fraternal e desapareceu imediatamente após o feixe de luz se acender.


FIM