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18 de dezembro de 2016

A Menina de Gabrovo: Terceira Parte do Capítulo "O Dilema de Klara".

campos abertos, por do Sol, pássaros namorando

Se Liza podia ser considerada uma sólida e intransponível fortaleza, a menina, por sua vez, também era um oceano de doçura e persistência, cuja as ondas têm o poder de penetrar quaisquer muralhas.

Liza não resistiu ao sorriso de Klara. Perguntou:

"Qual história você quer?"

"Aquela da montanha." - respondeu, a menina, antes de um acesso de tosse. Conhecia a história, mas pouco se lembrava dela. - "Mamãe, o que eles eram mesmo?" - perguntou, referindo-se aos personagens da história.

"Ciganos." - respondeu, Liza. - "Eles eram anjos ciganos."

"E existem anjos ciganos, mamãe?"

"Sim, minha princesa." - respondeu à menina. - "Eles existem."

Deitou-se, então, ao lado da filha e, penteando com os dedos seus cabelos encaracolados, começou a contar a história:

"Havia uma montanha majestosamente cheia de vida. Ela era tão grande e tinha tantas árvores que só se podia vê-la, por inteiro, de muito longe." - imediatamente após começar a contar a história, Klara fechou os olhos e foi imaginando a montanha, os anjos, as árvores e tudo o mais que julgava caber nela. Com os olhos fechados e o coração totalmente aberto, a menina de Gabrovo viu-se saudável, livre da peste cinzenta que a fazia sofrer, e o ar preenchia seus pulmõezinhos com incrível facilidade. - "Dizem que a montanha foi nos oferecida por Deus em resposta à bondade dos homens." - Liza prosseguiu. - "No alto dela, bem perto do céu, os anjos ergueram um acampamento e não havia um só dia em que os anjos não dessem banquetes e não festejassem a vida..."

"E Deus?" - ainda com os olhos fechados, a pequena interrompeu a história.

Sem entender a pergunta, Liza a encarou.

"O que tem, Ele?"

"Deus também mora, com os anjos, na montanha?" - perguntou, Klara.

"Deus vivendo num acampamento!" - a jovem mãe exclamou e fez uma careta, arregalando os olhos. - "Sim, querida." - respondeu, levantando-se da cama. Logo em seguida, antes de voltar a deixar o quarto, beijou a filha no rosto e perguntou. - "Onde mais Ele moraria, senão com os anjos?"

Klara, logo em seguida, se apressou em pedir:

"Mamãe, me conta outra história."

"Sinto muito, mas já chega de histórias." - firmemente, Liza negou o pedido, explicando. - "Tenho muito serviço para fazer na cozinha e você precisa descansar."

A jovem mãe deixou o quarto e Klara, então, em meio aos acessos de tosse que a afligia, fechou os olhos e forçou-se a dormir.

15 de dezembro de 2016

A Menina de Gabrovo: Segunda Parte do Capítulo "O Dilema de Klara".

série infantil A menina de Gabrovo, segunda parte do capítulo

Os passarinhos, em resposta, piaram com ternura, arrancando um sorriso da menina, que, pouco tempo depois, voltou a chamar:

"Mamãe!"

"Sim, querida." - preocupada, Liza retornou apressadamente. E perguntou. - "O que houve?"

"Por que Deus é tão mau com a gente, mamãe?"

A pergunta fez Liza estremecer de dor.

"Minha filha, sei que o seu sofrimento não é algo que eu possa abrandar ou até mesmo ignorar." - disse, ela, convicta da bondade de Deus. - "Me lembro de ter dito para você descansar. Vamos, feche os olhos e descanse." - voltou a pedir. - "Por acaso não está duvidando da bondade de Deus, está?" - perguntou, com ligeira incredulidade no que acabara de ouvir. Por fim, Liza respirou fundo e sorriu, limitando-se a responder a pergunta. - "Escute atentamente o que eu vou lhe dizer: questionar Deus não é um bom começo para entender o que ele quer da gente." - acarinhou no rosto da filha.

Sua religiosidade parecia ainda mais inabalável nas horas de maior sofrimento. Somente parecia, porque Liza não se mostrava pronta para aceitar o sofrimento de Klara de qualquer outra forma se não por uma mera provação divina, um período de dificuldade; dificuldade, essa, que era uma só entre as muitas que ela atravessaria ao longo da vida e da qual sempre estaria ao lado dela para confortá-la.

"Tenha fé."

Com a certeza de que não havia sentido algum para tal pergunta, a jovem mãe, então, bufou e se curvou sobre a cama."

"Tudo vai passar." - disse, beijando-a na testa, e, mais uma vez, pediu. - "Agora descanse, meu anjo."

Klara não protestou, fechou os olhos. Porém, antes mesmo que Liza chegasse na porta do quarto e voltasse aos seus afazeres, pediu:

"Me conta uma história."

"Uma história, mas o dia nem amanheceu." - Liza virou-se para a filha, estreitando os olhos. - "As melhores histórias só são contadas de noite para a gente ter bons sonhos." - disse amorosamente, em tom de fantasia.

"Por favor." - com a voz rouca, Klara insistiu.

12 de dezembro de 2016

A Menina de Gabrovo: Primeira Parte do Capítulo "O Dilema de Klara".

Passarinhos coloridos na janela, céu acinzentado.

"Por que Deus é tão mau com a gente, mamãe?" - quis saber, assim que acordou, uma menina de cinco anos, após outra noite de febre alta e sucessivas crises de tosse.

O nome dela era Klara. Mesmo tão nova, Klara conhecia muito bem o gosto amargo que uma vida infeliz pode ter. Doente, não tinha forças para se levantar da cama, nem sair do quarto, e tampouco conseguia se animar para brincar com as amigas das quais não via há um bom tempo.

"Bom dia, minha princesa." - respondeu, Liza, à filha, cumprimentando-a enquanto dobrava algumas peças de roupa que havia acabado de recolher do varal. A jovem e dedicada mãe fingiu não ter ouvido a pergunta da menina. Pacientemente, antes de deixar o quarto, pediu. - "Descanse mais um pouco, por favor. Sim?"

Do lado de fora do quarto, no céu da Bulgária via-se um tom doente, frio e cinzento, assim como o restante da paisagem de Gabrovo que não aparentava ser mais saudável do que a menina. A natureza, no entanto, mesmo severamente maltratada pelo clima frio do inverno, consegue ser generosa.

No momento em que Liza deixou o quarto, sete passarinhos, cada um de uma cor diferente, pousaram na janela e fizeram, por um mísero instante, os olhos esfumaçados de Klara encherem-se de vida ao vê-los.

"Bom dia, passarinhos." - em voz quase inaudível, ela os cumprimentou.