Com
o Sol forte raiando sobre a laje, Uelinton destapou a frente do
barraco, saindo para trabalhar, e viu uma galinha morta, a cabeça
depenada, na beirada de um córrego que passava rente às tábuas. Ao
lado da galinha, havia um pires de milho: trabalho brabo de macumba.
Para o próprio desgosto, Uelinton acreditava em quase tudo que
não tinha explicação racional, argumentada.
-Valha-me,
Deus, que coisa ruim não pega em mim! - benzeu-se e foi trabalhar.
Era
um moço avoado que se retirou do sertão em busca de sustento, que
sempre viveu de bicos, que não veio retirado da seca sozinho, que
não vivia de bicos sozinho para ter do que comer. Retirou-se do
sertão com o gêmeo chamado Uilson, que, por sua vez, não levava
uma vida muito diferente da do irmão. Os dois começando na vida,
meninos ainda verdes de tudo, eram gozação da jagunçada. Uma
década e meia depois, homens crescidos, aprenderam a se defender.
-Ei,
seus jagunços boiolas que não montam direito nem em cachorro,
venham nos pegar filhos de rapariga! - zoavam e depois corriam.
Apesar
de tudo, mereciam ser considerados sujeitos de alguma sorte. Após
adaptarem-se com a vida no Rio, Uelinton e Uilson viviam juntos em um
barraco que, de tão no limite da favela, no alto do morro, como que
lentamente, o improviso parecia ser expulso para fora da comunidade e
dentro da cidade, mesmo que pendurado no morro feito brinco de tábua,
suspenso no ar sobre uma estrada federal. Roupas, alimentação,
transporte: dividiam as poucas despesas que podiam arcar, mas, ainda
assim, tinham que dar duro com o que faltava. Um irmão se fazia
gostável pelo outro, não se desgrudavam, afinal, eram a única
família que tinham fora do sertão.
Na
favela, sempre que passava um caminhão na estrada, aquelas carretas
carregadas com tudo de mais pesado, o barraco ameaçava despencar do
morro, mas só ameaçava pois nunca se moveu um milímetro; e olha
que não eram poucas as vezes que as carretas passavam carregadas com
tudo! Deus o segurava pela fé. - Por pior que esteja, botei reparou
que uma coisa é certa com a gente, maninho: no final, Cristo sempre
ajuda. - Uilson constatou certa vez ao irmão, que, próximo a
eleição na cidade, foi abordado por um conhecido da favela que se
candidatara a vereador. - Se me der o seu voto e o de seu irmão,
arranjo um emprego para você na câmara e um outro na prefeitura
para ele. - prometeu, o candidato, que não se elegeu e que nunca
soube se não havia tido nome suficientemente lembrado para ser
eleito ou se os irmãos, bem como o restante da favela, não foram
fiel como haviam apalavrado ser. A verdade é que Uelinton, como
havia se comprometido, votara no vereador, já Uilson não tinha o
temperamento dos que se contentavam com a caridade corrupta de
terceiros e sequer foi votar. - Prefiro ralar. - justificou. Enquanto
o irmão sonhava com a estabilidade de um emprego público, dos com
salário todo fim de mês pingando na mão, Uilson passava o dia todo
catando latinhas para vender no ferro-velho.
Uma
semana antes da semana do Natal, Uelinton e Uilson conheceram duas
irmãs que também eram gêmeas: chamavam-se Paula e Patrícia
respectivamente. Paula e Patrícia, chegadas na favela havia
completado um mês, moravam com o pai surdo-mudo, querido por todos.
-Como
vai, Seu Clodinho? - a vizinhança o cumprimentava.
-Uio
êm, obiao! - Seu Clodinho agradecia.
A
vida tem dessas coisas, alguém poderia dizer. O fato é que Uelinton
começou então a namorar com Paula e Uilson apaixonou-se por
Patrícia; e não se desgrudavam um só instante. Paula e Patrícia
pediam a benção ao pai, deixando-o sozinho, e iam a noite para o
barraco de Uelinton e Uilson para vê-los. Nos primeiros dias do
namoro, se encontravam geralmente no meio da manhã e no fim da
tarde; e não eram raras as vezes que os quatro ficavam juntos, em
conchinhas de dois, no mesmo colchão. E foi assim por um tempo
proveitoso quando tiveram as primeiras brigas: intriguinhas de bobo!
Em todas elas, Uelinton, Uilson, Paula e Patrícia discutiram por
motivos mais do que despropositados em comparação com a
determinação de ficarem juntos: Uelinton começou a demonstrar
ciúmes de Paula ao perceber que ela era excessivamente simpática
com Uilson, que, por sua vez, externou ciúmes de Patrícia, que se
mostrava cada vez mais carinhosa com Uelinton, esse, se achando o
“Racional do Mundo”, o “Mestre dos Improvisos”. Mas nunca foi
além desse tanto: que brigassem e passassem alguns dias sem se
falar, logo depois, voltavam a namorar.
Certa
ocasião, Uelinton presenteou Paula com um cachorrinho que resgatou,
desorientado no acostamento de outra estrada que passava no outro
lado da favela, e Patrícia, quase que simultaneamente, também fora
presenteada por Uilson: ganhou um gatinho varado de fome que Uilson
havia recebido das mãos de uma vizinha de barraco que trabalhava
como doméstica; gatinho, esse, que a vizinha havia sido presenteado
pela patroa, por sua vez, também presenteada pelo filho mais velho,
criado por uma tia fazendeira do Mato Grosso. Não era apenas um, a
vizinha ganhara da patroa uma ninhada de cinco gatinhos, na qual,
para a tristeza de todos, um veio a morrer minutos depois que nasceu.
- Teve até cortejo, com um funeral de gato, com direito a padre e
tudo. - Uilson contou à namorada.
Uilson
também gostava de ler. Um de seus passatempos favoritos nas poucas
vezes que tinha tempo, além de estar junto com Patrícia, era
visitar uma biblioteca comunitária que os próprios moradores da
favela haviam montado em um barraco mais ajeitado e, por lá, ficar
foleando livros, descobrindo as histórias que lhe despertassem uma
genuína e interessada vontade de ler, daquelas vontades que a gente
não aguenta enquanto não alcança o último ponto final. Preferia
quase sempre histórias de detetive e biografias.
Já
Uelinton guardava em sua memória um grande sonho: queria ser um
profissional do futebol. Na infância, não muito diferente de
qualquer outro dos jogadores bons de bola pobres do sertão, passava
dias e tardes no chuta-chuta com os amigos e já se via, presunçoso,
estourando em um clube do sudeste, exatamente como um daqueles
famosões de carro importado que aparentam nunca terem problemas na
vida. Jovem, tentou várias vezes realizar seu sonho: com a ajuda de
um padrinho, participou de peneiras em praticamente todos os grandes
clubes, porém, sem muito talento, destinou-se a uma vida frustrada e
não foi aprovado em nenhum; cogitou até se inscrever em outros
clubes de menor importância de outros estados que não os do
sudeste, mas, sem padrinho e dinheiro para o transporte, viu-se
impedido de continuar tentando e desistiu do sonho por fim. Se
jogasse futebol, agora trintão, seria somente por divertimento, e
só.
Nada
na vida é tão bom ou ruim que não possa melhorar ou piorar.
Com
a chegada da primavera do ano que se seguiu, Uelinton rompeu o namoro
com Paula, seguido por Uilson, que rompeu o relacionamento que tinha
com Patrícia. Cansaram-se, os quatro, do convívio de um com o
outro, e, na semana seguinte aos términos, Uelinton e Uilson
decidiram dar um fim à dureza e à dificuldade que levavam, tomando
a corajosa decisão de prosperarem na vida. De centavo a centavo,
haviam conseguido acumular umas economias. Compraram uma combi velha
que usariam para vender brigadeiro na favela, daqueles tão bons que
só se acham nas melhores padarias. Uilson foi até a biblioteca,
onde procurou um livro que tivesse receitas de doce e encontrou um,
de poucas páginas, com várias receitas com chocolate, brigadeiros
inclusive. Conseguiram receita de brigadeiro com canela, com menta,
com morango, com laranja e até salgado. - Que criança vai gostar de
um brigadeiro de feijão recheado com peito de frango? - descartaram
a receita logo de cara. Uilson pegou o livro e, no mesmo dia, meteram
a mão no chocolate. Foi um sucesso como poucos: de real a real,
levantaram um casão na favela em pouco tempo.
Uelinton
e Uilson
se reconciliaram com Paula e Patrícia.
FIM.

Oi! Como vai? Antes que eu me esqueça, só queria deixar um comentáriozinho sobre o termo macumba! Não sei se usou propositadamente por conta do personagem, mas eu mesma não sabia há muito tempo disso e acho que é sempre bom repensar em preconceitos, então acho que todos devemos nos atentar ao fato de que macumba, na verdade e a despeito do que dizem, é um instrumento musical, e não qualquer atividade da religião! Dito isso, quero parabenizar pelo texto! Achei os personagens profundos e adorei a criativa história. Não pude conter o riso ao final. Parabéns! Abraços.
ResponderExcluirGiovanna, obrigado pelos elogios.
ExcluirO termo macumba, na boca do povão,, significa magia negra, e foi esse o sentido que eu quis dar, rs
Não tenho o menor talento p/ ser politicamente correto, rs.
Volte sempre; que bom que gostou!
Oi, Roberto! Tudo bem?
ResponderExcluirVocê escreve muito bem, estou impressionada!! Conseguiu escrever um conto que prendesse do começo ao fim, com uma história diferente e crítica, acho que posso dizer assim.
Parabéns pelo seu texto, pela forma como você conduz o leitor, contando o passado de Uelinton e Uilson, alguns eventos presentes e como conseguiu terminar muito bem o texto. Continue sempre escrevendo, tenho certeza que você vai longe!
Laura, não tenho palavras para agradecer tamanhos elogios. Só um colossal OBRIGADO! rs
ExcluirSão palavras como as tuas que me motivam a continuar escrevendo.
Volte sempre!
Gostei muito! Os meus parabens 😉
ResponderExcluirObrigado, Joao.
ExcluirFoi direto e reto no comentário, hein, mas está valendo, rs!
Oi Roberto, tudo bem?
ResponderExcluirMais uma vez seu texto está muito bem escrito, com uma história coesa e no fim reflexiva. Creio que compreendi perfeitamente a mensagem que você desejou transmitir!
A realidade das comunidades no nosso país é bem difícil mesmo, as pessoas necessitam de força de vontade para levantarem todos os dias e ir em busca de algo melhor. Seus personagens são a personificação disto e é a força de vontade e coragem deles, rondam muitos personagens da vida real.
Parabéns pelo texto!
Beijos!
Valeu, Alice, fico contente que tenha gostado do conto.
ExcluirGentil e generosa como sempre!
Esse conto parece ser precisamente o contrário de todos os outros. Curioso, menino Rob.
ResponderExcluirObrigado, Vitor, esse conto é de fato diferente dos outros que venho postando por aqui. A história é propositadamente banal, realista.
ExcluirEspero que tenha gostado, rs.